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Imagem Freepik | meramente ilustrativa
Quase trinta anos ao serviço de um jornal de tiragem nacional não chegaram para evitar o desemprego fruto de uma reestruturação que, no essencial, decorre do imperativo de sempre: redução dos custos de trabalho. Ricardo, da tarimba dos seus cinquenta e seis anos, enfrenta uma nova etapa da sua vida de fotógrafo profissional – o desemprego puro e duro.
Conviveu com grandes nomes do fotojornalismo e marcou presença nos mais sangrentos palcos de guerra que o planeta já conheceu. Casado com Amélia, nascida em Marvão, aceitou o repto, por ora irrecusável, de recolher-se naquela simpática vila bem próxima da fronteira de Espanha, situada entre Castelo de Vide e Portalegre, no ponto mais alto da bonita Serra de São Mamede, na região alentejana.
Fruto da evolução tremenda registada nos equipamentos, Ricardo investiu forte. Está hoje munido de invejáveis reflex profissionais, acessórios técnicos e outros arrojados complementos óticos. Aderiu às últimas tendências e tecnologias, escolhendo produtos híbridos. Em conclusão, está sem pé-de-meia porque nunca, nos seus mais ousados pesadelos, logrou antecipar tão violenta mudança de vida.
Inquieto e agitado pelas circunstâncias, tenta manter as rotinas e logo pela manhã sai com o seu arsenal diário de fotografia.
Num ambiente de paz de espírito e tranquilidade, circundada por muralhas do século XIII e do século XVII, Marvão eleva-se bem alto firmando os seus méritos de terra histórica com ruas tortuosas e branco casario, mostrando que o tempo não é tão célere e ligeiro como tantas vezes faz crer. Ricardo esforça-se por tudo captar mesmo que tenha de desafiar a sorte naquela localização singularmente estratégica – com difíceis acessos, que serviram como proteção natural, e de tão vizinha da fronteira, fez com que fosse um baluarte defensivo português durante séculos, onde se travaram numerosas batalhas e combates políticos. O dedilhar insano regista, sob os mais inesperados ângulos, os inúmeros menires e antas que remontam aos períodos Paleolítico e Neolítico.
Este fotógrafo talhado pelo frenético pulsar da grande Lisboa detém-se no refinado exercício de contemplar a História que corre naquelas ruas apertadas, celebrando a arquitetura alentejana, as heranças góticas, os legados manuelinos e os espólios medievais de outros tempos e ofícios, marcados na rudeza do granito local.
Mas estar no Alentejo é submeter-se aos ditames da sua luz, daquele sol inclemente e escaldante que ilumina e amadurece as uvas e da secura emanada pelas suas planícies onduladas sem fim. Ricardo, mesmo abatido pela ausência de outros horizontes, percebe estar autenticamente esmagado pela imponência de vinhas cultivadas por fenícios, gregos, romanos e, hoje, por grandes casas agrícolas e produtores que vêm afirmando a marca Alentejo entre os valorizados vinhos portugueses. Ali repousa, com secular ciência, um mundo de sabores diferentes que exige, como tudo o mais no Alentejo, tempo para o compreender e festejar.
O parceiro das mil e uma objetivas, foi arrebanhado pelos vinhos alentejanos. As agora mais frequentes comezainas com o sogro são preenchidas com demoradas degustações onde alterna os brancos frutados, de aromas intensos e originais com os tintos de aromas igualmente frutados, mas frescos.
Notando a frustração do genro, o patriarca lança para a mesa um branco que define com nobre exatidão:
- “Aqui está o mais recente da herdade. No nariz, é elegante com aromas a frutos tropicais. Na boca, é fresco, frutado e com uma agradável acidez. Final fresco e persistente.” – sentenciou naquele tom monocórdico que distingue os abastados na vida.
Ricardo, na verdade, nada escutou. Os seus pensamentos vagueiam pelas ruas da grande metrópole de onde espera uma resposta para a sua crescente agonia. Os planos estão troikados e o presente, apesar da tão frustrante quanto necessária ajuda do sogro, é contado ao cêntimo.
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