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Foto retirada daqui | Revista VISÃO
Do balanço (possível) do que terá corrido mal
Com frieza, racionalidade e espírito construtivo, importa reconhecer que o combate aos incêndios em Albergaria-a-Velha, enfrentou vários desafios que contribuíram para dificuldades e falhas no seu controle eficaz. De forma despretensiosa, permito-me identificar alguns dos principais problemas, ou constrangimentos, que sobressaíram aos olhos de um cidadão comum, que até teve de abandonar a sua casa por duas vezes:
- Condições Meteorológicas Adversas
- Ventos fortes e temperaturas elevadas: O calor extremo e os ventos intensos dificultaram os esforços para conter os incêndios, permitindo a rápida propagação das chamas. A previsão inadequada ou a subestimação das condições meteorológicas podem ter contribuído para uma reação inicial menos eficaz.
- Coordenação Ineficiente dos Meios no Terreno
- Falta de articulação entre as forças: Apesar da mobilização de vários meios, como bombeiros, proteção civil e militares da GNR, houve relatos de falta de coordenação no terreno. A comunicação entre as equipas de combate terá sido, em alguns momentos, insuficiente, levando a uma menor eficácia na distribuição dos recursos, o que atrasou a resposta em áreas críticas.
- Atraso na mobilização de meios aéreos: Os meios aéreos são fundamentais para conter a propagação inicial do fogo. No entanto, a sua mobilização pode ter ocorrido tardiamente ou até mesmo em número insuficiente, resultando numa incapacidade de conter as chamas antes que atingissem proporções maiores.
- Falta de Prevenção e Gestão do Território
- Acumulação de material combustível: A gestão do território florestal revelou-se deficiente, com grande acumulação de material combustível como mato e árvores secas. A falta de limpeza e de ordenamento do território multiplicou as áreas suscetíveis a incêndios de maiores proporções.
- Monoculturas de eucaliptos: A prevalência de monoculturas de eucalipto, uma espécie (como sabemos) altamente inflamável, foi outro fator agravante. A ausência de diversificação e a escassez de barreiras naturais aumentou o risco de rápida propagação do fogo.
- Infraestruturas e Recursos Insuficientes
- Carência de bombeiros e meios logísticos: Em certas fases do combate, pareceu evidente uma falta de bombeiros disponíveis para o combate direto às chamas. A escassez de recursos logísticos, como água e equipamento de proteção, também foi notada, comprometendo a capacidade de reação rápida.
- Falta de formação adequada para populares voluntários: O elevado número de populares voluntários sem formação específica para combater incêndios florestais também foi por alguns apontado como um fator de risco, colocando em causa a segurança e a eficácia das operações.
- Respostas Tardias ou Inadequadas a Sinais de Risco
- Reação tardia a focos de incêndio: Houve relatos de respostas tardias aos primeiros focos de incêndio, o que permitiu que as chamas ganhassem força. A deteção precoce e a rápida intervenção são, como se sabe, fundamentais para conter incêndios, mas parece que as falhas nesta etapa poderão ter contribuído para a escalada do problema.
- Falta de sistemas de alerta locais eficazes: Em algumas áreas, os sistemas de alerta às populações locais e de evacuação não terão sido suficientemente escorreitos, o que resultou em situações de tensão acrescida para os residentes.
Em conjunto, estes fatores demonstraram uma combinação de condições adversas com falhas estruturais no combate aos incêndios, que pode ter ido desde a preparação até à resposta dada no terreno.
Aguardemos pela resposta dos poderes públicos, que dirá da sua capacidade para aprender (ou não) com os erros. De igual modo, caberá às populações acompanhar e escrutinar a ação futura dos seus eleitos locais, avaliando, com exigência, as suas opções.
Cinco propostas concretas a pensar (já) em 2025
Para prevenir novos e graves incêndios em Albergaria-a-Velha em 2025, afigura-se essencial adotar, o quanto antes, medidas de prevenção e gestão territorial eficazes, bem como fortalecer a resposta local. Não sou perito na matéria embora, nas últimas semanas, me tenha esforçado por contactar profissionais e especialistas da área, bem como consultar alguma da bibliografia disponível, que me estimularam a ponderar cinco propostas concretas:
- Reforço da Gestão Florestal e Limpeza Regular
- Limpeza obrigatória de terrenos: Desenvolver programas rigorosos de fiscalização e incentivos para a limpeza de terrenos, especialmente nas áreas rurais e florestais. Em consequência, deve ser priorizada a criação de faixas de contenção e a remoção de material combustível (mato, arbustos e árvores secas).
- Incentivo à diversificação florestal: Fomentar a substituição progressiva de monoculturas de eucalipto por espécies autóctones e menos inflamáveis, criando zonas de floresta resiliente que funcionem como barreiras naturais contra o avanço de incêndios.
- Criação de Zonas de Proteção de Agregados Populacionais
- Faixas de proteção contra incêndios: Definir zonas de segurança (firebreaks) em redor das áreas habitacionais e infraestruturas críticas, com uma manutenção rigorosa e regular, para evitar que os incêndios florestais atinjam rapidamente as casas e outro património edificado.
- Plano de evacuação e alerta: Desenvolver um plano de evacuação atualizado e bem publicitado junto das populações, com sistemas de alerta eficazes, como sirenes, mensagens de texto automáticas e coordenação com os serviços centrais de emergência.
- Aumento do Investimento em Sistemas de Deteção e Monitorização
- Instalação de torres de vigilância e câmaras de monitorização: Reforçar a rede de vigilância florestal com a instalação de torres equipadas com câmaras de monitorização em tempo real, ligadas aos serviços de emergência, para uma deteção precoce de focos de incêndio. Neste particular, alerto, a título de exemplo, que a torre de vigia, durante anos instalada no Monte da Nossa Senhora do Socorro, foi desmantelada.
- Utilização de tecnologia de drones: Implementar o uso de drones para patrulhas periódicas, especialmente durante a época de maior risco de incêndios, para identificar possíveis pontos críticos e intervir preventivamente.

Eis a base torre de vigia, durante anos localizada no Monte da Nossa Senhora do Socorro e, entretanto, desmantelada
- Fortalecimento das Equipas Locais de Combate e Prevenção
- Reforço do corpo de bombeiros e formações contínuas: Aumentar os recursos humanos e materiais dos nossos corpos de bombeiros, garantindo, com um leque atrativo de incentivos, a formação contínua dos profissionais e voluntários em técnicas de combate a incêndios florestais, gestão de emergência e evacuação.
- Parcerias com voluntários locais e agricultores: Incentivar a criação de brigadas voluntárias de prevenção de incêndios, com formação adequada e equipamentos fornecidos pelas autoridades locais, integrando os agricultores na prevenção ao fomentar a criação de zonas de pastoreio controlado e faixas de proteção.
- Campanhas de Sensibilização e Educação Comunitária
- Programas de educação sobre riscos de incêndios: Promover campanhas regulares de sensibilização e educação pública sobre prevenção de incêndios florestais, envolvendo escolas, associações locais e meios de comunicação. Informar a população sobre boas práticas na limpeza de terrenos e comportamentos de risco.
- Apoio a práticas agrícolas sustentáveis: Incentivar os agricultores a adotar práticas agrícolas que reduzam o risco de incêndios, como – repito-o – o pastoreio controlado, a criação de aceiros naturais e o uso responsável (e autorizado!) do fogo para limpezas.
Estas propostas representariam um esforço que, pelo menos, teria o condão de compatibilizar ações preventivas com um reforço dos recursos de combate e sensibilização, criando uma abordagem integrada para reduzir, significativamente, o risco de novos incêndios em Albergaria-a-Velha.
Aguardemos pela resposta dos poderes públicos, que dirá da sua capacidade para aprender (ou não) com os erros. De igual modo, caberá às populações acompanhar e escrutinar a ação futura dos seus eleitos locais, avaliando, com exigência, as suas opções.
José Manuel Alho
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