Crónicas com tradição (XVII) - O Conde das Castanhas foi à capital

castanha.jpg


Imagem retirada daqui


Em nome da rede de cooperação por si dirigida, que já conta com mais de trinta parceiros das regiões produtoras de castanha, Francisco Conde intensifica o seu trabalho de sensibilização junto Ministério da Agricultura e das Direções Regionais de Agricultura e Pescas visando a promoção da fileira da castanha. Há meia dúzia de anos que tenta garantir a duplicação da plantação de souto em Portugal e a criação de 1 600 postos de trabalho diretos entre outras vantagens para milhares de agricultores. Apesar da recetividade estatal, o certo é que ainda nada foi feito com vista à definição de um plano estratégico de apoio ao setor.


Na reunião de hoje com um jovem “especialista” ministerial, entretanto vergado aos ditames da gravata inicialmente excomungada pela bela Ministra, arriscou garantir que a exportação teria um “efeito extraordinariamente positivo na economia das zonas de montanha abrangidas”, mas só no caso de se “aumentar a área de plantação de souto no país” - preveniu. Em complemento, acenou com a ameaça oriunda de países como a China, a Coreia do Sul, o Japão, a Rússia ou a Turquia “que em pouco tempo cimentaram a sua posição de líderes na produção mundial de castanha”.


Há muito que defende que “para que haja mais castanha é preciso que haja também investimento” e as reações iniciais são sempre de grande sensibilidade à causa. Infelizmente, relata aos colegas de luta, “aquela gente de Lisboa nunca se compromete com nada”...


A região de Trás-os-Montes e Alto Douro, detendo 85% da produção nacional de castanha, distribuídos por uma área superior a trinta mil hectares, há muito que anseia por uma qualquer linha de estímulo que também ajude as populações a enfrentar o elevado desemprego da zona. O jovem “especialista” governamental designado para receber Francisco, que parecia estar consideravelmente longe dos trinta anos de existência, até isso confessou desconhecer. O homem da castanha sentiu-se menorizado por alguém que mais pareceu estar ali a cumprir um dever institucional de ocasião do que propriamente para conhecer e ponderar as respostas reclamadas pelos produtores.


Já no final da reunião, quando todos cumpriam os habituais rituais de despedida, o imberbe representante da tutela deixa escapar que até aprecia “estes alimentos do Outono e mais comia se não fossem tão gordos”. O Conde das Castanhas não perde o ensejo de refutar a aparente erudição do interlocutor para, de uma assentada, esclarecer:


- Saiba que a quantidade de gordura que as castanhas apresentam é em tudo muito semelhante à dos cereais e, consequentemente, muito inferior à dos restantes frutos gordos. Por outro lado, o seu conteúdo em água é de cerca de cinquenta por cento. Todas estas qualidades fazem da castanha um fruto de conteúdo calórico muito inferior aos restantes frutos outonais. Aliás, pela sua riqueza em hidratos de carbono, a castanha constitui uma excelente fonte de energia para pessoas com tão ingratas missões como a do senhor doutor…


Um súbito mas ensurdecedor silêncio que sobre todos se abateu lançou a dúvida: este remate teria sido dado a título de conselho medicinal ou não teria passado de uma refinada manifestação de ironia perante a manifesta impreparação daquele funcionário ministerial?


O que se seguiu não desfez a dúvida. Novembro começara como de habitual. Com mais uma reunião na capital. De novo, sem resultados. Francisco Conde caminha para o seu Clio de estimação enquanto se liberta energicamente da sua gravata da sorte. Socorre-se do telemóvel e dispara para um tão desprevenido quanto surpreendido confrade:


- Para mim, acabou-se. Já não tenho pachorra para estes cachopos de Lisboa!

Comentários