Uma crónica | Vou fazer-te a vida negra!

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Margarida acabara de ser designada diretora do Centro de Saúde de uma vila tendencialmente urbana. Logo de início, fez sentir aos que consigo passariam a trabalhar ao que vinha. Na primeira reunião de trabalho, além das habituais apresentações, traçou um rumo que definiu prioridades e instituiu orientações muito precisas. Dizia ela que “o melhor é mantermo-nos fiéis à filosofia da linha. Enquanto andarmos na linha, tudo bem.
Se não, o comboio acabará por descarrilar”. Era um discurso muito determinado para uma profissional abada de chegar aos trinta.


Como os exemplos – bons ou maus – vêm sempre “de cima”, comunicou a todos a necessidade de cumprir horários, ter atitudes e comportamentos que, além de ajudarem a um bom ambiente de trabalho, estivessem incondicionalmente virados para os interesses dos utentes. As primeiras impressões dos “clientes” daquela unidade de saúde eram as melhores. Estavam notoriamente bem impressionados, surpreendidos até.


Nas primeiras semanas, trabalhou em parceria com uma dupla de anteriores responsáveis a fim de assegurar a normal transmissão de poderes. Ambos, a roçar os sessenta anos de existência, geriram os destinos daquele centro durante mais de vinte anos. Sentiam aquela nostalgia de quem está de partida, mas garantiam sentir a singular sorte dos que “ainda poderão chegar a gozar a reforma!” Palavras sábias.


O Dr. Gustavo e a Dr.ª Teresa encaravam estes novos tempos, estas consecutivas alterações de procedimentos e de lógicas de trabalho com estranheza, mas com a experimentada desconfiança dos que sempre afiançam, quando confrontados com o ocaso de um ciclo, a certeza de “o inferno estar cheio de gente bem-intencionada”. Às tantas, o povo começou a aperceber-se das melhorias e a estabelecer comparações com um passado duradouro, largando rasgados elogios “à Dr.ª Margarida. Com ela, isto está diferente”.
Concomitantemente, a nova diretora decretara o fim dos almoços e jantares para a Direção daquele Centro de Saúde, que eram invariavelmente extensivos aos respetivos cônjuges, à custa do orçamento privativo dos serviços. As atividades culturais e recreativas, até então tidas por naturais e imprescindíveis ao “bom ambiente” haviam então sido reduzidas a realizações com carácter vincadamente simbólico, pagas por todos e cada um dos interessados. Contudo e sem se aperceber, Margarida estava a afrontar interesses ainda instalados, que, lá no íntimo, encararam durante anos a fio aquela unidade de saúde como uma extensão da sua quinta pessoal, um esboço consistente de uma coutada privativa. Simplesmente, aqueles eram os rostos da “velha guarda”, uma caquética sociedade secreta, sempre pronta a reconhecer os seus “amigos”, usuários habituais – e por isso defensores – das suas “piquenas ilegalidades”.


Iniciaram-se as conversas de corredor, as intrigas e o veneno anda a ser inoculado com a facilidade de um contágio por via aérea. O Dr. Gustavo e a Dr.ª Teresa estavam, mesmo de saída, a urdir um conjunto de ataques rasteiros. No essencial, não arrasavam o trabalho da jovem sucessora.
Nada disso. Decidiram lançar boatos e rumores de que maltrataria o seu filho de 3 anos, que seria esposa muito pouco dedicada e que no bairro onde residia era mal vista pelos vizinhos que, segundo relatos tão credíveis, mantinha discussões “do arco-da-velha”, que toda a gente ouvia tal “era o tom das vergonhas”.


Um dos funcionários, indignado com tão despudorado fel, decidiu contar a Margarida o que escutara. Tendo há algum tempo pressentido tão refinada resistência, a determinada diretora não fora apanhada de surpresa. Tratara-se apenas de uma confirmação. Os antigos “gestores” viram finalmente os seus nomes no Diário da República. Estavam formalmente aposentados.


Ao contrário do expectável, os cidadãos Gustavo e Teresa, estando agora fora e com a possibilidade de gozarem a ansiada reforma, queriam estar dentro. Viviam intensamente todas as ocorrências passadas no “seu” Centro de Saúde. Até criaram e mantiveram saudosos “pontos de contacto”, que tudo lhes contavam. Haviam prometido que “lhe (à Dr.ª. Margarida) fariam a vida negra!”


Sem resultados práticos, forjaram uma carta anónima, pejada de erros ortográficos para disfarçar, não fossem alguns traços gráficos ostensivamente peculiares. Como não sabiam de computadores – uma “ciência oculta” – recorreram à sua caligrafia. Margarida constara o óbvio. Aqueles dois, mesmo instigando e escrevendo, em representação de algumas funcionárias (ainda) pesarosas com a transformação encetada, sistemáticos requerimentos sobre isto e aquilo, estavam obcecados não consigo, mas com tudo aquilo que ela representava: a mudança, a novidade e a inevitabilidade de todos se prepararem ara, um dia, abandonarem algo, que por muito tempo, pensaram ser seu ao ponto e ousarem presumir que ninguém faria melhor que eles.


Perseverante, continua hoje o seu trabalho. Tem evoluído e ganho enriquecedora experiência. Sabe não poder controlar o que outros decidem pensar a seu respeito. A seu favor, tem o trabalho que é consensualmente reconhecido. No mais, para quem sabe esperar, tudo vem a tempo.

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