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"- Fale-me agora do povo", pedia o novo ano.
E o velho: "- É um boi que em Portugal se julga um animal muito livre, porque lhe não montam na anca; e o desgraçado não se lembra da canga!".
- Mas esse povo nunca se revolta?", insistia o ano novo, espantado.
E respondia o velho:
- O povo às vezes tem-se revoltado por conta alheia. Por conta própria, nunca".
E uma derradeira questão: "- Em resumo, qual é a sua opinião sobre Portugal?".
E a resposta lapidar do ano velho:
- Um país geralmente corrompido, em que aqueles mesmos que sofrem não se indignam por sofrer."
Este diálogo esclarecedor deve-se a Eça de Queirós. O mesmo Eça que escreveu sobre o Portugal de então: "O povo paga e reza. Paga para ter ministros que não governam, deputados que não legislam (...) e padres que rezam contra ele. (...) Paga tudo, paga para tudo. E em recompensa, dão-lhe uma farsa."
Estávamos em 1872...
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