Uma crónica | Nunca perguntes por quem os sinos dobram

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Passaram três semanas.


Francisco é um jovem e bem-sucedido gerente bancário. As promoções internas obrigaram-no a abdicar de ter vida familiar própria. Casado com uma ambiciosa advogada, já é pai de um puto com cinco anos de idade, conclui agora quase não ter usufruído da meninice do curioso Rafael. É uma criança há muito entregue aos mecanizados encantos de uma consola.


Com a Primavera pintada de fresco, decidiram – pasme-se – fazer um piquenique. Em plena viagem, cantaram-se canções que a todos convocaram. Refrões ingénuos, mas desde sempre familiares, heranças perenes que uniram muitas gerações.


A dado momento, o miúdo, no meio de tão ansiada agitação, deixa cair o “Lucas”, o fofo boneco que nunca recusou juntar-se às brincadeiras daquele ser tão ternamente frágil. Francisco, o homem do leme, reagindo por instinto à necessidade de prontamente resgatar o colorido Lucas, perdeu o controle do seu mimado monovolume. Despistaram-se numa ponte excecionalmente concorrida.


Acordou numa cama de hospital. À cabeceira, este invejado gerente vê somente os pais que, a custo de uma quantas interjeições seguidas de silêncios comprometedores, lhe comunicam a gravidade do acidente. A mulher e o pequenote estavam em coma num quadro clínico a merecer fundadas reservas. Um e outro batiam-se pela vida.


Ele escapara apenas com um punhado de arranhões simbólicos.


Passaram mesmo três semanas?! Sim. Três semanas da mais crua agonia que a natureza humana pode experimentar. Deixou de ter dias e noites. As cadeiras nas salas de espera do hospital ganharam as suas formas. Despenteado, de camisa invariavelmente desfraldada, com a barba por fazer e de olheiras cravadas num olhar desgovernado, sabe que o filho e a mulher persistem em não registar melhorias.
Depois de insistentemente convencido pelo pai, aceitou ir a casa tomar um duche e fechar os olhos por umas horas para enganar o cansaço.


De novo acordado. Desta feita, parece novamente engolido por uma já conhecida normalidade. Bocejando, ouve o trinado dos sinos. Comenta com a mãe, nestes dias em casa para confecionar algumas refeições: ”os sinos estão a tocar. Quem morreu?”


A mãe, com a tez irremediavelmente estarrecida, ampara-se no granito da cozinha. Baixa os olhos como que antecipando uma notícia que uma mãe nunca deveria dar a um filho já crescido...


Francisco é hoje um marido sem mulher e um pai sem filho. Deixou de ter desejo, esse cão irascível que lhe mordia os calcanhares para viver como um animal presunçosamente especial. Aprendeu a não perguntar mais por quem os sinos dobram. Simplesmente, quando escuta aquele funesto zunido, refugia-se no carro, aumentando drasticamente o volume do rádio. Ouviu num documentário recentemente exibido que durante uma tempestade o chassis de um automóvel absorve toda a energia descarregada sendo por isso o local mais seguro para sobreviver a tão violento imprevisto.


Aprendeu a detestar imprevistos. Protegido na sua carapaça ultramoderna, recorrendo ao rádio como quem usa uma lanterna numa noite de severa tempestade, agarra-se compulsivamente ao grande resistente de todo este infortúnio: Lucas, o fofo.


Porque a vida (também) é feita de comportamentos defensivos, e mesmo correndo o risco de guetizar-se no seu mundo, definiu para si uma máxima, que sabe eternamente convincente: “quem não ouve é como quem não sabe”.

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