Uma crónica | Quando a fé existe apenas nos lábios

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Abel foi sempre de poucas falas. Mais reivindicativo do que propenso a lamentações casuísticas, subiu na vida a pulso. Tem casa numa zona residencial privilegiada, um carro que ajuda a consubstanciar uma imagem de sucesso profissional justamente reconhecido, e uma família que se estende a uma mulher, há algum tempo doente, e, por isso, entregue às responsabilidades de manter um lar com um rapagão já adolescente. Apesar do bem-estar material ser iniludível, o que acumulou saiu-lhe do corpo.


A brutal mecânica da vida, pouco sensível à especificidade da individualidade humana, projetou-o contra uma rotina avassaladora. Foi sempre cristão cioso das suas práticas, fervoroso animador de eventos comunitários, mas os exigentes afazeres laborais levaram-lhe quase tudo. Hoje, em face até dos ataques de quem tem sido alvo pelos êxitos somados, sente-se entediado com a vida, estando em vias de se sentir desprovido de FÉ. Não sabe o que são férias a sério desde há oito anos e pressente-se estar à beira de um esgotamento nervoso. Na empresa, com a recém-chegada (nova) chefia, tem enfrentado imprevistos confrontos que, sem exceção, culminam em radicalismos hierárquicos que o têm humilhado. Está com o orgulho ferido.


Enfim, tudo lhe parece encoberto por uma escuridão que entenebrece os horizontes da alma, uma derrota previsivelmente irremediável. Há uns dias, a pretexto de uma falha de sinal da televisão por cabo, desabafou para o quem quis ouvir “estou farto desta vida!”.


Acorda e adormece com a solução do suicídio no pensamento.
Presume que com a extinção do corpo cessarão os problemas, um género de porta de salvação que lhe poderá até garantir uma aura de heroísmo perante os que o conhecem.


Abel achou importante voltar à Igreja Matriz para falar com o velho, mas sempre sábio, Padre Artur. Com ele sente uma proximidade que o tranquiliza. Durante largo tempo fala de si e das suas angústias, de como é pesado o jugo do seu desânimo. Diz-lhe que o melhor será “deixar este mundo”. O clérigo, com a serenidade dos que lidam com a complexidade dos vivos tentados pela morte, informa-o da “ilusão de presumir que com o suicídio acabarão as tormentas da vida”, prevenindo “poderás sair do sofrimento para entrares na tortura”. Na ocasião, lembrou alguns livros, de origem mediúnica, com relatos de antigos suicidas que davam conta “de vales sinistros, onde se congregam, em sociedades tétricas, os que sucumbiram ao autoextermínio. Nessas regiões – enfatiza o pároco – diz-se que os quadros são terríveis, indescritíveis na linguagem humana. É-se atormentado pela visão constante das cenas do suicídio. O seu e o de outrem.”. De seguida, resume os relatos à suspeita de “sevícias e sinistras gargalhadas povoarem a longa noite dos que não tiveram a coragem para enfrentar o tédio, a calúnia, o desamor, a desventura...” Ousou até vaticinar que “se os homens pudessem ter uma nesga e olharem, à distância, as cenas de torturante sofrimento a que serão submetidos os suicidas, diminuiriam por certos as estatísticas dos que optem de desistir de viver!”


Abel estava sinceramente impressionado. Ainda assim, insistiu: “que posso eu ter ou contar para simplesmente resistir?!”


Padre Artur, recostou-se no cadeirão, apontou os olhos à vidraça por onde perpassavam ténues raios de sol, como prenúncio de uma intervenção grave, e asseverou: “acredito firmemente que a falta de FÉ responde pela quase totalidade dos suicídios. Quem tem FÉ não deserta da vida. A FÉ é alimento espiritual, que fortalece a alma e nos põe em condições de suportar os conflitos da existência para que possamos superá-los. A FÉ é mãe extremosa da prece”. – asseverou.


Abel acusa o toque e permite-se retorquir: “mas eu sempre fui um homem de FÉ!”


O eclesiástico não se detém:” Sim, há muita fé que existe, apenas, nos lábios. Mas quem ora com FÉ tem o entendimento aclarado e o coração fortalecido. Não temas porque jamais se esvaziarão as fontes de misericórdia de Deus!”


Ter-se-á perdido em suicida e recuperado uma vida?

Comentários

  1. O discurso da FÉ é corajoso.
    O do Padre Artur fantasioso.
    Do todo oxalá resulte Fé e não medo.

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