A responsabilidade social da televisão: entre o lucro e o dever

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A televisão tem um poder imenso. Molda opiniões, educa, informa (ou desinforma), influencia comportamentos. No entanto, constato que esse poder tem vindo a ser usado de forma crescentemente discutível. Na luta por audiências e pelo lucro, muitas estações parecem ter optado por declinar qualquer preocupação com a responsabilidade social, entregando-se à espectacularização da violência, à banalização do sofrimento e à superficialidade do entretenimento rasteiro.


Os telejornais, que deveriam informar com rigor, transformam tragédias em espetáculos e alimentam o medo como estratégia de engajamento. Os programas de entretenimento, por sua vez, reforçam, muitas vezes, estereótipos nefastos e valores ocos sob o pretexto de "dar ao público o que ele quer". Mas até que ponto esse argumento é válido, defensável ou aceitável? Se a audiência for o único critério, estaríamos, por essa ordem de raciocínio, a permitir qualquer conteúdo, independentemente das suas potenciais consequências?


Neste cenário, que já deveria instado as entidades reguladoras a agir, destaco os reality shows que vêm acumulando uma sobrevalorização tendencialmente nociva. Exibidos em horários nobres e cada vez mais entregues à desregulação selvagem, exploram, esmiuçando até ao tutano, a intimidade e os conflitos pessoais dos participantes como forma de cativar e de fidelizar o público. O sensacionalismo, a humilhação e a promoção de comportamentos tóxicos aparentam terem sido elevados à categoria de mercadorias valiosas, em detrimento de princípios éticos. A normalização progressiva destas dinâmicas perniciosas influencia, cada vez mais, a perceção das audiências sobre o que será aceitável na vida real, contribuindo para o incremento de uma cultura de exposição desmedida e de extrema superficialidade.


Defendo que a televisão terá, o quanto antes, de assumir o dever de equilibrar o entretenimento com a educação, o lucro com a ética, o impacto imediato com a responsabilidade a longo prazo. Isso significará investir em conteúdos que informem sem manipular, que entretenham sem desacreditar a inteligência elementar do público, em resumo, que promovam discussões e reflexões construtivas em vez de (somente) alimentar polémicas estéreis.


Para os puristas, devo prevenir que a responsabilidade social da televisão não poderá ser confundida com censura. Ao contrário. É compromisso. É entender que cada programa tem impacto e que é possível conciliar a qualidade com a audiência, desde que haja interesse genuíno em contribuir para uma sociedade mais informada, crítica e consciente. Se as cadeias de televisão não assumirem essa missão, cabe ao público exigir que o façam. A televisão reflete a sociedade, mas também participa na sua formação. A escolha do que privilegiamos em nossa casa também dirá muito sobre o que queremos ser.

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