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Luís de Camões, com a sublime precisão de quem viu o mundo pelo avesso, resume em meia dúzia de versos o que muitos se recusam a admitir: a injustiça social, por não ser um fenómeno moderno, é – há muito – património da humanidade.
Vemos os bons a lutarem, a resistirem, mas a serem esmagados pela máquina trituradora do poder e da corrupção. No entretanto, os maus — esses artistas da manha e do compadrio — deslizam, impunes, num mar de contentamentos. A mediocridade, em traje(s) de gala, desfila triunfante e com indisfarçável soberba.
Camões espantava-se. Nós, já nem isso. A anestesia moral parece ter tomado conta do nosso tempo. Habituámo-nos à inversão de valores como quem se habitua a um imposto novo — resmunga-se, mas paga-se. Estranha-se, mas depois entranha-se.
Se calhar, o verdadeiro espanto seria vermos, um dia, os bons a nadar e os maus a afundarem-se no seu próprio lodo. Mas enfim... a esperança, como sempre, é o último fôlego antes do naufrágio.
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