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Foto com a assinatura "A.A.F."
Recomendo também a consulta do blog "Monte do Socorro"
Há lugares que, mais do que geográficos, são espirituais. O Bico do Monte, em Albergaria-a-Velha, é um desses espaços onde a devoção e a paisagem se unem numa só oração.
A festa de Nossa Senhora do Socorro, celebrada no terceiro domingo de agosto - amanhã será feriado municipal em Albergaria-a-Velha - remonta a tempos em que a fé era o amparo maior das comunidades agrícolas, vulneráveis às incertezas da natureza. A pequena capela, erguida no alto do monte, tornou-se ponto de peregrinação e símbolo de esperança, atraindo romeiros que subiam pela encosta não apenas para pedir graças, mas para contemplar um horizonte onde a serra e o mar dialogam.
Nesta tradição centenária, a religiosidade funde-se com o reencontro familiar e comunitário, transformando o Bico do Monte num verdadeiro altar ao ar livre, onde a paisagem é tão sagrada quanto a prece. É neste cenário, que parece pintado pelo próprio Criador, que o poema de António Correia d’Oliveira encontra terreno fértil para elevar a palavra à altura da fé.
Antes de mergulharmos nas palavras que António Correia d’Oliveira eternizou, convido o leitor a levantar os olhos para o horizonte do Bico do Monte. Apesar de votado a um esquecimento envergonhado, não é apenas um monte, nem apenas uma capela: é uma varanda sobre a alma do povo, onde a serra e o mar trocam confidências ao ouvido do vento. Quem ali chega, percebe que aquela paisagem não se vê apenas com os olhos, sente-se com a memória. E cada pedra, cada pinheiro, cada sopro de neblina parece segredar a mesma promessa: a de que a fé, quando se entranha, atravessa séculos.
Na poesia que se segue, o autor não descreve apenas um lugar, oferece-nos um retrato em que a natureza é altar, a luz é incenso e Nossa Senhora do Socorro é, simultaneamente, padroeira e guardiã deste “hospital” de almas portuguesas.
SENHORA DO SOCORRO
"Numa paisagem forte e excepcional,
Aonde cabe bem toda a beleza
Desta terra a que chamam Portugal
E eu chamo o coração da Natureza,
Nos primeiros arrancos em que a terra
Fugindo do mar, que é pesadelo de águas,
Torna de novo a si e se faz Serra,
E se revolta em pinheirais e fráguas,
E no alto dum serro, ao mar fronteiro,
Ante a montanha séria, foi erguida
A mais linda capela que um romeiro
Pode ver, na romagem desta vida:
Pode ver a encimar o airoso monte
Que do mar para a serra se encaminha,
Como deusa pagã que fosse à fonte
E levasse à cabeça a cantarinha…
Senhora do Socorro: à tua roda
Que verde devoção de pinheirais!
Os pinheirais que rezam, sabem toda
A Fé das grandes coisas imortais,
As verdes legiões que tu dominas
De toda a altura, e que parecem,
Não árvores agrestes, pequeninas
Roseiras que ajoelham, e florescem…
A um lado, ao sol, o mar, tão claro e ardente
(A névoa é o fumo duma onda a arder),
E o mar, que toca o céu, parece à gente
Que se ergue mais em si, para te ver.
Doutro lado, a montanha imensa e augusta,
A fortaleza altíssima de Deus
Nessa guerra de amor que à terra custa
Verde sangue que sobe e brada aos céus.
E em toda a imensidade azul e branca
A névoa e o sol que dão também batalha,
E são gritos de luz que o sol arranca,
E desmaios da névoa que se espalha…
Olhai! Olhai: O céu, a serra, o mar…
Aqui não há doenças nem fraquezas:
Todo o remédio está somente em olhar
Neste Hospital das almas Portuguesas."
António Correia d’Oliveira
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