Um banquete para um banqueiro: a essência do "Epitáfio" de José Paulo Paes

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Esta imagem, de um excerto do poema "Epitáfio para um banqueiro", por José Paulo Paes (JPP), mais do que um convite à reflexão, é uma bofetada de luva branca. JPP, com a sua mestria na concisão, destila a vida e o legado de um banqueiro através de uma sequência decrescente, quase matemática, de existência.


Começamos com "negócio", o pilar da sua vida, a sua razão de ser, o verbo que o definia. Segue-se "ego", inevitável nas figuras de poder, a projeção de si mesmo, a medida do seu valor no mundo dos homens. Depois, o "ócio", talvez um vislumbre do que poderia ter sido, ou a ironia do tempo livre finalmente alcançado, mas sem propósito. E a desconstrução continua, com o "cio", a vida biológica, o instinto básico, reduzido a uma sílaba, quase um lamento.


Finalmente, o "0". O nada. A anulação. Uma metáfora pungente do vazio que, por vezes, se esconde por trás de impérios construídos sobre números e transações. O "0" não é apenas o fim, é a síntese mordaz de uma existência que, desprovida de humanidade, se desvanece na insignificância. É a derradeira provocação de Paes, a perguntar: o que resta quando o negócio, o ego, o ócio e o cio se diluem? Resta, garantidamente, o vazio.

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