Aurora de Dalí: um (re)começo surreal

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Salvador Dalì [1904-1989]
Aurora - 1948 | Museu de Figueres


Dalí, com a sua "Aurora", oferece-nos a poderosa imagem de um ovo gigante aberto ao nascer do sol, símbolo universal do renascimento. O ovo, associado à criação, e o sol, motor da vida, encontram-se aqui numa explosão de luz, convocando-nos para a ideia de que cada dia é um novo princípio.


Não menos intrigante é o detalhe: andaimes e homens em redor, como se o milagre da aurora exigisse um esforço coletivo e organizado. Dalí ironiza: até o nascimento do dia exige trabalho, engenharia e aceitação do caos.


O quadro vai além do fenómeno físico; sugere uma aurora interior, um instante de reinvenção e esperança, onde vulnerabilidade e potencial se cruzam à margem da existência.


Como professor de origens humildes, nascido no Lobito e forjado no bairro do Campinho, olho para esta tela e vejo ali todos os que, quotidianamente, constroem a sua própria aurora, longe dos holofotes mas perto da essência humana. Porque, no fim, cada um de nós transporta dentro de si um ovo por eclodir: potencial, esperança e a inevitável luz que insiste em nascer mesmo nas madrugadas mais improváveis.

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