Educar para o caos ou para a Cidadania?

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A sala de aula como espelho da sociedade em miniatura


A sala de aula do 1.º Ciclo, esse espaço onde se semeiam os primeiros traços da cidadania, tem vindo a transformar-se num palco de tensões, ruído e desorganização. Não por culpa das crianças, mas por omissão de um sistema que insiste em ignorar a complexidade da infância contemporânea. A pedagogia do século XXI exige mais do que manuais e fichas: exige escuta, exige tempo, exige humanidade. E exige, também, que as Famílias assumam o seu papel na educação dos filhos, deixando de delegar na Escola aquilo que é da sua exclusiva responsabilidade: o respeito, os limites, a empatia. A Escola não é um centro de reabilitação comportamental, nem um depósito de menores em horário laboral. É, ou deveria ser, uma comunidade educativa onde todos, sem exceção, têm deveres.


A pedagogia da presença e da exigência


A pedagogia contemporânea, como defende Jonas Emanuel Pinto Magalhães (2022), não pode continuar a ser apenas transmissiva; deve ser transformadora. As competências socioemocionais, reconhecidas no Perfil dos Alunos à Saída da Escolaridade Obrigatória e valorizadas por diversos estudos internacionais, são hoje pilares da formação integral. Mas como se desenvolvem essas competências num ambiente onde o professor é, simultaneamente, tutor, mediador, psicólogo, enfermeiro e, por vezes, bombeiro?


Rita Ferreira (2020) propõe a disciplina positiva como alternativa à gestão autoritária. A escuta ativa, o debate de regras com os alunos e a co-construção de rotinas são estratégias que promovem ambientes mais saudáveis. Verónica Franco (2014) destaca a importância da autoavaliação e da heteroavaliação como instrumentos para a aquisição de comportamentos sociais adequados, reforçando a ideia de que a consciência sobre o próprio comportamento é um passo essencial para a cidadania. Sofia Entrudo (2021), por sua vez, sublinha o papel do professor como agente co-regulador da atenção, essencial para a autorregulação da aprendizagem, mas alerta para a necessidade de um ambiente estruturado e colaborativo, onde a responsabilidade não pode recair exclusivamente sobre o docente.


Neste contexto, torna-se imperativo exigir das Famílias uma participação ativa e consciente. A Escola não pode continuar a ser o único espaço de formação ética e comportamental. A ausência de limites, a negligência afetiva e a delegação total da educação para os professores são sintomas de uma sociedade que se demite das suas obrigações parentais. Educar não é apenas um direito, é um dever. E esse dever começa em casa.


Famílias: o elo que falta na engrenagem educativa


Apesar dos avanços teóricos e das boas intenções pedagógicas, a Escola não pode, nem deve, assumir sozinha o encargo da formação integral das crianças. O chão da sala de aula não é um campo de batalha por falta de estratégias docentes, mas sim pela ausência de um verdadeiro pacto educativo com as famílias. Muitos pais delegam na Escola aquilo que deveria começar em casa: o respeito, a escuta, a organização, a empatia. A gestão comportamental não se ensina apenas com regras escritas no quadro; exige coerência entre o que se vive na escola e o que se pratica em casa. A Escola pode ser espaço de transformação, mas não é um milagre ambulante. Sem o envolvimento ativo das famílias, qualquer esforço pedagógico será sempre parcial, precário e, muitas vezes, inglório.


Educar: entre o abandono institucional e a demissão familiar


Educar, hoje, é um ato de resistência - não apenas contra a burocracia e a infantilização da profissão docente, mas contra a indiferença da tutela ministerial e a demissão das famílias. O Ministério da Educação continua a tratar a Escola como um laboratório de experiências políticas, ignorando as reais necessidades das comunidades educativas. As famílias, por sua vez, delegam na Escola a missão de educar, esquecendo que os valores, os hábitos e o respeito não se ensinam apenas entre quatro paredes com quadros e cadernos. A Escola precisa de recuperar o seu papel formador, não apenas de leitores e calculadores, mas de cidadãos conscientes e responsáveis. E isso só será possível quando o sistema escutar mais, apoiar melhor e quando os pais deixarem de ser meros espectadores da educação dos seus filhos.

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