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A escola do 1.º Ciclo do Ensino Básico em Portugal vive num limbo entre a nostalgia e a negligência. O modelo monodocente, a carga horária desumana, a ausência de espaços adequados e a burocracia asfixiante são sintomas de um sistema que insiste em sobreviver sem se reinventar. Este texto propõe uma reflexão crítica e fundamentada sobre a urgência de uma reforma estrutural, humanista e corajosa.
Aprendizagens Essenciais ou Essencialmente desajustadas?
As Aprendizagens Essenciais (AE), homologadas pelo Despacho n.º 6944-A/2018, pretendem ser a base comum do currículo nacional. Contudo, como reconhece o próprio documento, a extensão dos programas e metas curriculares tem sido um obstáculo à consolidação das aprendizagens e à diferenciação pedagógica.
O Decreto-Lei n.º 55/2018, que estabelece o currículo dos ensinos básico e secundário, fala em flexibilidade e autonomia curricular, mas na prática, as escolas continuam reféns de uma lógica uniformizadora e descontextualizada.
Como dizia Maria Montessori: “A prova do sucesso da nossa ação educativa é a felicidade da criança”. E, convenhamos, poucas crianças parecem felizes sob este modelo.
Horários, espaços e pessoas: a Escola precisa de respirar
A carga horária semanal de 25 horas letivas, distribuídas entre manhã e tarde, está prevista na matriz curricular do 1.º Ciclo. Mas esta organização ignora o ritmo biológico e emocional das crianças.
Em alternativa, proponho um horário letivo das 9h às 13h; as tardes, dedicadas ao apoio ao estudo, às artes, à atividade física e à cultura, garantidas por outros professores, e não pelo professor titular da turma. Não é utopia, é pedagogia.
A Portaria n.º 644-A/2015 reconhece a importância das Atividades de Enriquecimento Curricular (AEC) e da Componente de Apoio à Família (CAF), mas não resolve o problema da sobrecarga e da falta de espaços adequados.
É urgente, por isso, investir em espaços polivalentes, cobertos, inclusivos e tecnologicamente apetrechados, como preconizam os manuais técnicos da Direção-Geral dos Estabelecimentos Escolares.
E quem assegura estas atividades pós-13 horas? A resposta está à vista, mas ninguém a quer ver. Os monitores, técnicos e animadores que deveriam acompanhar os alunos nas tardes escolares existem, abundam, e estão empilhados nas Câmaras Municipais, organismos públicos e entidades subsidiadas. Muitos sobrevivem exclusivamente de dinheiros públicos e, não raras vezes, passeiam-se com pastas vazias, para que a opinião pública presuma que estão em “serviço externo”.
Recrutar estes recursos humanos para funções educativas complementares seria um ato de gestão inteligente e socialmente justo. Mas exige coragem política e vontade de enfrentar os interesses instalados. Como dizia António Sérgio: “A educação é a arma mais poderosa para mudar a sociedade, mas só funciona se for empunhada por quem não tem medo de usá-la.”
Polivalência, burocracia e a máquina do Ministério: quem defende os Professores?
O 1.º Ciclo carece de infraestruturas dignas: espaços polivalentes, inclusivos e com tecnologia real, não “PowerPoints” em papel de embrulho. Espaços que potenciem a inclusão e a experimentação, como preconiza José Pacheco: “não é aceitável alunos do século XXI serem ensinados por práticas do século XX”. Mas a verdadeira modernização será impossível enquanto a burocracia absorver o fôlego docente. Só uma simplificação eficaz - mensurável, com incentivos às direções escolares combativas - permitirá libertar professores do obscurantismo administrativo. É imperativo garantir maior representatividade dos monodocentes nas decisões dos agrupamentos, acabando com a invisibilidade dos que asseguram a base do sistema. Por fim, abale-se a máquina central ministerial, onde eminências pardas sobrevivem a governos e ministros, balizando o ensino à margem do terreno e dos seus profissionais. Que se escute Paulo Freire: “ninguém liberta ninguém, ninguém se liberta sozinho, os homens libertam-se em comunhão.
A coragem que falta à política
A escola do 1.º Ciclo está a morrer de velha. Não por falta de professores, mas por falta de visão.
Não faltam recursos humanos em Portugal. Faltam decisões. Como referi anteriormente, técnicos, monitores e animadores atropelam-se em Câmaras Municipais, organismos públicos e associações que sobrevivem exclusivamente de subsídios estatais. Muitos desses profissionais, com formação e vocação, poderiam estar a enriquecer as tardes escolares com atividades culturais, físicas e artísticas. Mas não: passeiam-se com pastas vazias, em “serviço externo”, numa tentativa de convencer a opinião pública de que desempenham alguma missão.
Esta gestão absurda de recursos humanos é um retrato fiel da inércia política que nos governa.
É preciso coragem política para romper com o modelo obsoleto da monodocência, para devolver às crianças o direito de brincar, para libertar os professores da burocracia, para reabilitar os espaços escolares e para devolver à Escola a sua missão: formar cidadãos felizes, críticos e livres.
Como dizia Paulo Freire: “A educação não transforma o mundo. A Educação muda as pessoas. E as pessoas transformam o mundo.”
Portugal precisa de políticos que queiram transformar o mundo. E isso começa por transformar a Escola. Mas para isso, é preciso deixar de fingir que se trabalha e começar, finalmente, a servir.
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Comentários
Boa tarde
ResponderEliminarJá fui professor.
Comecei pela monodocência e depois pelas AEC, que de viés introduziram, a polidocência ao interromperem as aulas curriculares.
Comecei por uma escola que defendia a exploração de todas as capacidades criativas da criança - arte (desenho, pintura, modelagem), expressão física, musicalidade, expressão dramática - e não apenas o LEC (ler, escrever e contar) da minha escola primária. Passei pelo retrocesso de dividirem os professores em de 1ª e de 2ª, onde os de primeira iriam avaliar o desempenho dos professores de segunda a nível do velho LEC.
Comecei numa escola, dividida em duas fases, que defendia a aprendizagem experimental, da tentativa e do erro, em que o centro era o aluno, e não a "ensinagem" cujo centro era o resultado final. Voltei a uma escola que dividiu a escolaridade em quatro anos, apenas agora não eram a 1ª,2ª,3ª e 4ª classes, mas são o 1º. 2º,2º e 4º anos do 1º ciclo.
Quando fui professor tinha um Lema - «Escola Centro de Cultura, Centro de Educação, Centro de Vida.»
A vida escolar era partilhada por pais (encarregados de educação), alunos, auxiliares e pelo professor. Todos propunham actividades e todos decidiam o que fazer.
Na sala de aula alunos e professor elaboravam o plano de trabalho para uma semana, os alunos escolhiam o que fazer em cada dia, se em grupo, ou em individual, mas no fim de semana cada um apresentava o relatório da sua atividade.
Tudo isto nas cinco horas curriculares - 9:00h - 12:00h ; 13:00h-15:00h.
Não havia Trabalhos Para Casa, a penas a recomendação de brincarem muito e de lerem muito, de preferência em voz alta.
Saí da Escola onde me preparei para ser professor munido dos princípios básicos para assim exercer o meu trabalho. A aprendizagem de como o fazer aprendi com outros colegas e errando e aprendendo.
Creio que os meus alunos eram felizes. É esse sentimento que me transmitem quando me encontram.
Zé Onofre
Infelizmente, completamente de acordo. E o pior é que o que afirmas se aplica aos restantes ciclos de ensino. Crianças, jovens e professores “enclausurados”.
ResponderEliminarPelo que me foi dado a conhecer recentemente, escolas dos 1⁰s anos do 1⁰ ciclo carecem de tal maneira de pessoal que os voluntários da leitura nas escolas acabam por ler para turmas de vinte e tal alunos ao invés de acompanharem individualmente aqueles com maiores dificuldades. Mesmo esse voluntariado é escasso e desconhecido da maioria da população potencialmente capaz de o fazer. É tambem sabido que alunos chegam ao 5⁰ ano com tais dificuldades na leitura que as chances de conseguirem chegar muito mais longe em qualquer disciplina estarão sériamente comprometidas. Sem leitura e interpretação de um texto não havera sucesso em nenhuma outra matéria. Inadmissível!
ResponderEliminarConcordo plenamente com este post.
ResponderEliminarAlguém com coragem de mudar, precisa-se urgentemente!
As crianças já não são as mesmas, nem os pais... Nem os professores, que estão em vias de extinção 😉.