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Vivemos tempos em que a resistência deixou de ser um slogan colado em paredes para se transformar num risco permanente de sobrevivência. Resistem as plantas que romperam o betão, resiste quem se recusa ao silêncio imposto pela máquina trituradora da normalização. O mundo contemporâneo sofisticou-se na arte de dobrar corpos e vontades, de transformar indignação em algoritmo e dissidência em trending topic descartável.
No entanto, cada gesto de resistência - por mais ínfimo ou anónimo que pareça - é, simultaneamente, uma abertura de caminho e um convite ao perigo. Resistir hoje significa enfrentar não apenas a repressão clássica, mas a vigilância digital, a manipulação algorítmica e a desinformação industrializada. Entre as ruas e as redes, a resposta ao autoritarismo é sabotada pelo cansaço, pelo medo, pela sedução higienizada do conformismo.
Foucault falava da resistência como fissura no instituído: práticas imprevisíveis, linhas de fuga que esburacam o betão social. São gestos que desfiguram as evidências do quotidiano e fazem emergir novas perguntas, borrando fronteiras entre o político e o pessoal, o coletivo e o solitário. Mais que oposição, resistência é invenção, mas cada ato de contestação carrega o risco de ser capturado e esvaziado pelo próprio sistema que pretende subverter.
No fundo, resistir no século XXI é assumir o risco de ser triturado ou ignorado, sabendo que, mesmo sem garantia de vitória, não resistir é aceitar a morte lenta do pensamento, da liberdade, da dignidade.
Quem resiste não quer apenas sobreviver: quer, sobretudo, reescrever as regras do possível e gerar contágios de desobediência. Mesmo que, por vezes, tudo o que reste seja a poesia de uma erva que rompe o cimento.
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