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19.07.1934 - 4.12.1980.
“O nosso Povo tem sempre correspondido nas alturas de crise. As elites, as chamadas elites, é que quase sempre o traíram, e nós estamos a ver mais uma vez que o Povo Português foi defraudado da sua boa-fé.”
Francisco Sá Carneiro nasceu a 19 de julho de 1934 e morreu em Camarate, a 4 de dezembro de 1980, num desastre aéreo que ainda hoje permanece como ferida aberta na memória política portuguesa. Em poucos anos de vida pública assumiu a liderança do então PPD, ajudou a consolidar a democracia nascente e chegou a primeiro-ministro, defendendo uma ideia de política que, goste-se mais ou menos dela, tinha rosto, convicção e risco pessoal.
A frase que serve de pretexto, “o nosso Povo tem sempre correspondido nas alturas de crise, as elites é que quase sempre o traíram”, é hoje quase uma autópsia antecipada ao regime a que chegámos. O povo continua a corresponder, nas urnas e nos sacrifícios, mas a chamada coisa pública transformou-se numa espécie de condomínio fechado onde as elites partidárias trocam favores, carreiras e lugares, com a mesma frieza com que trocam de discurso quando a sondagem muda.
Sá Carneiro não foi santo nem salvador, mas fazia falta alguém com a mesma obstinação em dizer ao que vinha, mesmo sabendo que isso podia custar caro. Atualmente, faz falta a frontalidade de quem enfrenta corporações, lóbis e grupos de interesse, em vez de fingir que governa enquanto negocia, nos bastidores, o próximo cargo europeu, a reforma dourada ou o refúgio discreto como técnico especialista, adjunto ou afim, no gabinete de um qualquer ministro. Versão nacional ou miniatura autárquica, com isenção de horário e suplementos pagos 12 meses por ano, onde tantos se especializaram na arte de cair para cima.
O drama, hoje, é que o país parece entregue a uma tecnocracia sem ética, a um centrão administrativo para quem o Estado é sobretudo máquina de nomeações, consultorias e ajustes diretos, e não comunidade política ao serviço do bem comum. Fala-se de reformas estruturais, mas a verdadeira estrutura que se mantém é a das lealdades partidárias e dos pequenos pactos de sobrevivência, essa teia pegajosa que Sá Carneiro, com todos os seus limites, procurou rasgar ao colocar a ética pública no centro do combate político.
Talvez por isso a sua ausência ainda doa: porque lembra que a democracia portuguesa já teve quem arriscasse tudo para lhe dar densidade moral. E porque, olhando para o desfile atual de carreiristas, gestores de imagem e profissionais da ambiguidade, a falta de uma figura com a coragem incómoda de Sá Carneiro é também a medida da pobreza em que caiu a nossa vida pública.
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