- Obter link
- X
- Outras aplicações

Crescemos a ouvir que o brincar é coisa séria. No entanto, qualquer criança que hoje tente riscar um jogo na calçada das nossas maltratadas ruas está mais perto de apanhar uma reprimenda do que de apanhar ar puro.
A infância, outrora sinónimo de liberdade, tornou-se uma agenda industrializada de tarefas, tabelada à hora e medida em testes, tabelas e relatórios. Fala-se de espaços de recreio, mas são, cada vez mais, áreas minúsculas desenhadas sem escutar quem melhor as conhece: as próprias crianças.
Nas escolas, entre campainhas e reuniões, o tempo de lazer perdeu-se algures no calendário. Se existisse um ministério do ócio, proporia talvez um intervalo de cinco minutos para não incomodar o fluxo produtivo. O recreio passou a ser olhado como uma extravagância perigosa, um parêntese desconfortável num quotidiano repleto de aulas, explicações e atividades extracurriculares “enriquecedoras” que esvaziam as crianças de tempo livre e os pais de qualquer coabitação real com os filhos.
Para muitas famílias, a Escola tornou-se depósito temporário de menores: afinal, conviver com crianças cheias de energia é tarefa chata, delegável, de preferência, a troco de boas notas e ausência de queixas. Fala-se em “preparar para o futuro”, mas será que pais e escolas prepararão cidadãos ou apenas pequenos autómatos bem comportados, treinados para passar de comboio em comboio, sem nunca sair da linha, nem arriscar um salto fora da norma?
Enquanto se vão apagando os últimos riscos de giz do chão, que tantas vezes marcaram os percursos da minha infância (e de outr@s como eu!) resta a pergunta: quando voltaremos a dar espaço ao genuíno lazer? Continuaremos a transformar plataformas escolares em meros apeadeiros para a infância cansada?
- Obter link
- X
- Outras aplicações
Comentários
Enviar um comentário