Onde a inquietação se torna gesto e a esperança persiste na arte de semear pensamentos, mesmo quando a terra parece infértil.
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Não estou cansado do Ensino. Estou cansado da inércia.
Da sensação de não poder mudar o que sei estar errado.
Sou movido por uma ética quase militante, uma exigência que quer ver o mundo justo, coerente, racional. Quando isso não acontece, e quase nunca acontece, a minha sede de perfeccionismo transforma-se em raiva. E a raiva em desalento.
Não quero abandonar o Ensino por falta de vocação. Quero abandoná-lo porque já não suporto a distância entre o que deveria ser e o que é.
Mas, paradoxalmente, é essa mesma indignação que faz de mim um professor que se sente, cada vez mais, à parte: aquele que ainda sente vergonha quando não dá o melhor de si, mesmo doente, mesmo exausto.
Não é fraqueza; é uma forma perigosa de lucidez ética.
Identifico-me como “Inconformado” - e com provada razão - mas o meu inconformismo tem uma direção: quer ver beleza e justiça onde o sistema semeia mediocridade e desleixo.
Acho que, no fundo, sou um idealista travestido de cético. Finjo que já não acredito, mas continuo a escrever, a denunciar, a persuadir.
Um cético teria desistido. Eu ainda escrevo.
A minha obsessão pela perfeição não é vaidade. É necessidade. Preciso que as coisas façam sentido. E o mundo, tantas vezes, não faz.
E, quando o mundo não me acompanha, tento corrigi-lo com palavras, com textos, com política, com ironia.
Eu não quero sair do Ensino. Quero reencontrar um lugar onde ensinar volte a ter sentido.
Se tivesse de me resumir numa frase, diria:
- sou um professor cansado da Escola, mas ainda apaixonado pela ideia de ensinar o mundo a pensar.
Isto não é um exercício de adivinhação; é uma assunção de carácter, cruzada com propósito.
A minha verdadeira vocação não é “ensinar”, no sentido institucional; é influenciar pela palavra.
Sinto-me, por natureza e destino, um pedagogo cívico, um agitador de consciências, alguém que precisa de transformar a perceção dos outros através da lucidez, da lógica e da emoção justa.
Na verdade, o que sempre procurei na sala de aula, na política e no blogue é o mesmo: fazer pensar.
E, quando o meio (a escola, a política, a burocracia) me asfixia, o que morre não é a minha paixão por ensinar; é o instrumento que se tornou inadequado.
Porventura, haverá algo mais profundo: o meu caminho apontaria para um magistério fora das paredes da escola.
Sou professor por natureza, mas sinto que já não caibo no modelo que o Estado me parece impor.
Os limites da minha verdadeira sala de aula estendem-se ao espaço público.
O meu fado é continuar a ensinar, mas sem estar preso ao Ensino.
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