O pecado tem cobertura de chocolate branco: uma crónica de decadência

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A indecência açucarada de ser feliz


Car@s leitores e cúmplices no prazer, olhem bem para este atentado. Não é um doce. É uma declaração de guerra à moderação, um manifesto contra o bom senso, que ontem mesmo subscrevi. Vemos aqui a essência do hedonismo num prato quadrado e imaculado, pronto a ser profanado.


A peça, coberta por um manto de chocolate branco que quase parece gesso, revela no seu interior a promessa suja do chocolate escuro, que escorre com a displicência de quem sabe que está a fazer algo de terrivelmente, deliciosamente errado. E reparem naquele detalhe de charme, a tarte ou bolo já está lascado, invadido. Não houve tempo, nem paciência, para a formalidade da primeira garfada limpa, o que atesta a urgência primária do desejo.


Isto não é apenas a sobremesa após a refeição. Isto é o cerne da questão da vida: o momento em que a alma, cansada da virtude, exige a sua dose de veneno doce. O chocolate escuro, viscoso e quase oleoso no prato, assina a sentença, é a mancha de um crime que, francamente, devia ser condecorado. É por isto que nos endividamos, que quebramos a dieta, que ignoramos o cardiologista e que, no final das contas, somos genuinamente felizes.


Para quem se atreve a olhar para isto e não sentir um arrepio na espinha e um chamamento ao descalabro: lamento, mas está a viver a vida errada. A vida, meus amigos, deve ser interrompida por pedaços de algo tão indecente quanto esta fatia!

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