A comédia municipal em três cones e seis braços cruzados


 Imagem, meramente ilustrativa, retirada daqui

Começa quase sempre assim: um buraco no passeio, um lancil partido, um sinal torto. Liga-se para a Câmara ou para a Junta, abre-se uma ocorrência, sentimo-nos cidadãos exemplares. Dias depois, chegam eles, os heróis do serviço público visível, em viatura municipal, devidamente equipada com escadas, cones, coletes e, sobretudo, tempo. Muito tempo.

Chegam tarde, armados em urgência, mas com a calma de quem tem a eternidade por conta do orçamento municipal, encostam a viatura, acendem um cigarro, fazem um primeiro briefing científico sobre o buraco: “Mano, então mas isto foi quem, pá?” seguido de palavrão de rodapé, e só aí o país percebe que a obra começou, porque o decibel sobe mais do que qualquer salário. As crianças passam a caminho da escola, aprendem gramática alternativa em direto, os pais fazem de conta que não ouvem, e a autarquia, sempre preocupada com a educação, oferece assim um curso intensivo de linguagem imprópria, módulo “obras na via pública”.

Depois vem o momento técnico, a parte mais delicada, que é, claro, montar a esplanada imaginária em redor do buraco. Dois trabalham, um segura na pá, outro vigia o cone, e três fiscalizam de braços cruzados, não vá o buraco fugir. A operação é complexa: meia hora para descarregar uma ferramenta, outra meia hora para decidir se se usa a ferramenta ou se se chama “os do alcatrão, que isto não é connosco”. Entretanto, o buraco continua ali, impávido, claramente a abusar da paciência do contribuinte.

Quando finalmente se faz alguma coisa, faz-se depressa, para não estragar a manhã, despeja-se cimento como quem despeja açúcar no café, alisa-se por alto, e está pronto, provisório, eterno enquanto não chover. Na primeira chuvada, a obra municipal transforma-se em lago municipal. Os anfíbios agradecem, vizinhos praguejam, e a Câmara ou a Junta toma nota para uma futura intervenção, talvez daqui a um ou dois mandatos.

E as chefias? Essas figuras discretas, quase míticas, que aparecem nas reuniões de balanço e nas fotos da newsletter, mas que no terreno são avistadas com menos frequência do que um cometa Halley administrativo. Surgem, às vezes, apenas para assinar horas extraordinárias ou para lembrar que “o importante é cumprir o plano”, esse documento místico onde tudo está perfeito, exceto a realidade. Exigência, pouca. Presença, q.b.. Responsabilidade, diluída entre divisões, regulamentos e aquela frase mágica: “isso não é comigo”.

No meio disto, a culpa dança de mesa em mesa: é dos trabalhadores, que fazem pouco. É das chefias, que exigem menos. É de quem manda, que finge não ver. É de quem elege, que volta a pôr lá os mesmos, na esperança de que, desta vez, o buraco feche e o palavrão baixe o volume. Enquanto isso, de norte a sul, vão-se somando pequenas obras, pequenos remendos, pequenas vergonhas, e grandes horas extra, de preferência a um sábado de manhã, que o dever chama, mas a remuneração chama um bocadinho mais alto.

Fica a pergunta, quase filosófica: quando um trabalhador autárquico chega tarde, fala alto, faz pouco e faz mal: está a falhar ele, está a falhar a chefia, ou está a falhar um sistema inteiro que recompensa a presença, mas esquece a competência e o respeito por quem vive, trabalha e educa os filhos ao lado dessas obras eternamente inacabadas? Talvez um dia, em vez de assistirmos às obras como a uma comédia involuntária, possamos olhar pela janela e ver coisa mais rara:

- serviço público bem feito, em tempo útil, e em tom de voz compatível com a infância do bairro. Até lá, recomenda-se aos senhores moradores que mantenham as janelas fechadas durante as reparações, não vá a educação de casa perder para a formação contínua da rua.

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