A República do encolher de ombros

Quando ninguém exige, tudo apodrece em silêncio.
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Há uma estranha epidemia que alastra com uma rapidez inquietante. Não provoca febre, não deixa marcas visíveis, mas corrói tudo o que sustenta uma sociedade digna desse nome. Chama-se resignação. E tem uma frase-síntese, dita com a convicção mole dos que já desistiram de si próprios, sempre foi assim.

É o argumento preferido dos que confundem lucidez com incómodo. Sempre que alguém ousa apontar o que está mal, não surge a urgência de corrigir, surge a pressa de relativizar. Não aparece a exigência, aparece a desculpa. Não se levanta a cabeça, encolhem-se os ombros.

Esta atitude tem uma raiz profunda e antiga. Alexis de Tocqueville escreveu que o maior risco das democracias não é a tirania dos poderosos, mas a apatia dos cidadãos. Porque um povo que se habitua ao defeito deixa de reconhecer a virtude. Um povo que normaliza a falha passa a desconfiar de quem exige o acerto.

Há, neste comportamento, uma inversão moral inquietante. O problema deixa de ser o que está mal. O problema passa a ser quem tem a coragem de o dizer. O incómodo não é a realidade, é o espelho.

E assim nasce uma cultura de mediocridade protegida. Uma espécie de pacto silencioso onde todos fingem não ver, para não terem de sentir. Onde a crítica é confundida com ataque. Onde a exigência é tratada como insolência. Onde o inconformismo é rotulado de excesso, quando é, na verdade, o último reduto da dignidade cívica.

George Orwell avisou que, em tempos de mentira universal, dizer a verdade é um ato revolucionário. Hoje, talvez nem seja preciso tanto. Basta não alinhar no coro do conformismo. Basta recusar a anestesia colectiva. Basta não aceitar que o defeito seja promovido a paisagem natural.

Uma sociedade não se degrada apenas pelo que faz mal. Degrada-se, sobretudo, pelo que aprende a tolerar.

O primeiro sinal de decadência não é o erro. É a indiferença perante ele.

E há algo ainda mais perturbador: quem se habitua a viver rodeado de falhas acaba por desenvolver uma estranha forma de lealdade à própria decadência. Passa a defendê-la. Passa a justificá-la. Passa, no limite, a atacar quem ousa recusá-la.

Mas o progresso nunca nasceu do silêncio. Nunca nasceu do conformismo. Nunca nasceu do encolher de ombros.

Nasceu sempre do incómodo.

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