Albergaria‑a‑Velha: estradas em estado miserável

 


Mudo o foco para o concelho onde resido, trabalho e exerço o meu direito de voto: Albergaria‑a‑Velha. O tema são as vias municipais, o estado calamitoso a que chegaram as estradas sob responsabilidade direta do município. O cenário é de vergonha miserável, resultado de doze anos de incúria, descaso e desleixo, que ficam colados à pele do anterior presidente de câmara, António Loureiro.

Para agravar a situação, as intempéries recentes que assolaram o concelho e toda a região aceleraram a degradação das vias, que já se encontravam em estado lastimável. A chuva intensa, a força da água, a erosão acumulada e a ausência prolongada de manutenção resultaram num mosaico de crateras, sulcos e abatimentos que causam prejuízos crescentes a pessoas e bens. Isto não é fatalidade meteorológica, é responsabilidade política. A natureza apenas expôs, com brutal evidência, aquilo que a Câmara Municipal preferiu ignorar: estradas vulneráveis porque nunca foram tratadas com a atenção, o investimento e o respeito que um território merece.

Algures no tempo, alguém terá colocado a questão dentro da máquina municipal em termos dicotómicos: ou investimos nas estradas, ou investimos em festa para o povo. Muito provavelmente nem era necessário escolher assim, era possível encontrar um compromisso inteligente, equilibrado e sensato, garantindo festa e, ao mesmo tempo, manutenção digna das estradas. Mas a opção, infelizmente, terá passado por assumir o dilema e escolher a festa, deixando as vias municipais degradarem‑se até ao estado em que estão em 2026.

As estradas que temos envergonham-nos a todos, mas devem envergonhar, em primeiro lugar, os decisores políticos negligentes, cúmplices diretos de uma situação que se arrastou até ao limite do razoável. Espero que a recuperação comece o quanto antes, faseadamente, porque o estado a que se chegou exigirá verbas muito avultadas. Nada disto é fruto do acaso, esta questão nasce da gestão política pura e dura, cínica e interesseira, aquela a que já nos habituaram e que teima em tratar o bem comum como um detalhe descartável.

Albergaria-a-Velha: o asfalto da desídia e o peso da máquina

Recordo uma conversa com um presidente de câmara, conversa em que lhe chamava a atenção para a necessidade de intervir a tempo nos equipamentos municipais, evitando que a degradação viesse a rebentar com o orçamento. Sugeria que se ponderasse uma gestão mais sensata do dinheiro público, em vez de contratar em massa pessoal para a autarquia. A resposta foi lapidar: “Você imagina quantos votos trazem os funcionários da câmara? Não são só eles, são eles, as mulheres, os filhos, os familiares.” A franqueza, tão desarmante quanto cínica, explicou em segundos aquilo que muitos discursos escondem durante décadas.

Não fiquei surpreendido com o desassombro, mas fiquei triste. Tem de haver cuidado e parcimónia na gestão do dinheiro dos contribuintes, é o mínimo que se exige a quem administra a coisa pública. É evidente que há carências reais de pessoal que devem ser supridas, mas surge inevitavelmente a pergunta que ninguém gosta de fazer em voz alta. Contratamos tanta gente e os serviços municipais melhoram? Ou continuamos a ampliar o quadro de pessoal como quem alimenta uma máquina eleitoral, esperando que o orçamento aguente mais um ano de improviso?

No caso concreto de Albergaria, penso que não, para não dizer que tenho a certeza de que não. A câmara municipal será hoje um dos maiores empregadores do concelho, situação que, em teoria, deveria traduzir‑se num serviço público mais ágil e eficiente. Ainda assim, deixo a pergunta que incomoda, mas que precisa de ser feita: o cidadão comum sentiu, de facto, alguma melhoria no serviço prestado?

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