Dia de S. Valentim: romance com filtro, realidade sem brilho

 

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O amor é lindo, mas o ridículo, às vezes, é ainda mais fotogénico.

Aproxima-se o Dia de S. Valentim, essa data sagrada em que o amor verdadeiro se mede em rosas de supermercado, jantares temáticos e stories com filtros cor-de-rosa. De repente, quem passa o ano inteiro a discutir por causa da loiça por lavar transforma-se num casal de catálogo, com direito a frase feita sobre “a minha pessoa” e “abençoado universo que te pôs na minha vida”. Tudo muito comovente, principalmente para o cartão de crédito.

É o grande dia do consumismo romântico, em que se gasta o que não se tem, em nome de um amor que, às vezes, nem um mês de conversa aguenta sem avaria. Há quem invista o orçamento do supermercado em jantares “all you can post”, champanhes de marca impronunciável e peluches gigantes que ocupam meio quarto e metade da dignidade. Depois, no fim do mês, falta para o básico, mas, enfim, o importante é que o mundo tenha visto aquele boomerang do brinde com coração em fundo.

E, claro, nada disto existe verdadeiramente até ir parar às redes sociais. O ramo de flores não é para a pessoa amada, é para o feed. O jantar não é para saborear, é para fotografar de todos os ângulos, até a sobremesa sofre sessão fotográfica antes de ser assassinada à colher. O telemóvel come sempre primeiro. As mesas dos restaurantes transformam-se em altares de exibicionismo: velas, guardanapos dobrados, balões em forma de coração, tudo meticulosamente preparado, não para criar intimidade, mas para garantir que a fotografia rende comentários. Há quem passe mais tempo a escolher o filtro do que a olhar nos olhos de quem tem à frente. O amor moderno mede-se em gostos, partilhas e “que inveja, amiga”, enquanto a conversa verdadeira fica esquecida por baixo da decoração temática.

Depois há o lado logístico da coisa, que é ciência avançada. Os que têm relações paralelas, namorados ocultos, amores em part-time, de repente, enfrentam o verdadeiro desafio: dividir-se por vários plateaux sem se baralhar nas dedicatórias. Um jantar na véspera, outro no próprio dia, um “desculpa, estou cheio de trabalho” estrategicamente colocado, mais um “já sabes que não ligo a datas”, para despachar quem não calhou no sorteio principal. S. Valentim, aqui, é menos santo e mais gestor de agenda.

E chegamos ao fascinante capítulo dos presentes. Bouquet de clichés: perfumes, lingerie comprada à pressa, chocolates em forma de coração e, claro, os famosos vouchers “noite inesquecível” cheios de promessas que, na prática, acabam em ressonar sincronizado no sofá. Depois há o segmento mais picante, com brinquedos que chegam pelo correio em embalagens discretas, algemas fofinhas, fantasias “sexy”, que, na mente, parecem cinema, mas, na realidade, terminam em cãibra, riso nervoso e alguém a dizer: “tira isso, que eu não consigo levar-te a sério assim”.

As “surpresas” de cariz sexual valem por si: esposas que aparecem de rendas fluorescentes compradas com pontos do cartão da farmácia, maridos que acumulam coragem líquida em três whiskies para ver se aguentam o figurino, casais que tentam coreografias aprendidas em tutoriais de duvidosa credibilidade. A teoria é erótica. A prática é, na melhor das hipóteses, uma comédia romântica mal ensaiada. Mas não faz mal, desde que dê para pôr na legenda: “Noite épica com o melhor do mundo”.

E no meio deste circo todo, alguém pensa nos pequenotes? Porque há os casais que planeiam a “noite especial”, mas que se esquecem do pequeno detalhe: as crianças. Quem fica com elas? Os avós já estão fartos de ser spa de urgência para pais apaixonados, as babysitters cobram tarifa de ocasião, e há quem acabe a viver o “romance” ao som de um “mãe, não consigo dormir” vindo do quarto ao lado. O erotismo perde sempre para um pesadelo infantil e para um copo de água à meia-noite.

Talvez, no meio do ruído do marketing, dos corações de plástico e da ginástica para impressionar desconhecidos na internet, valha a pena fazer a pergunta incómoda: quem ama mais: o que gasta o ordenado em encenações de um dia ou o que tem a decência de ser minimamente presente, todos os outros 364? Mas isso dava pouco like

E, como se sabe, se não for para publicar, quase parece que o amor nem aconteceu.

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