- Obter link
- X
- Outras aplicações
O caso do Orlando Ramalho,
lapidarmente contado num trabalho num trabalho assinado pela jornalista Diana
Cardoso, do jornal “Correio da Manhã”, não é um acidente estatístico. É o
espelho de uma forma de governar a tragédia: muito anúncio à frente das
câmaras, pouca persistência depois de os microfones se desligarem. Quando, mais
de um ano depois de um incêndio, uma família continua sem teto e a promessa do
primeiro-ministro de que “ninguém ia ficar sem casa” fica por cumprir, não
estamos perante uma exceção, estamos perante um sistema que se habitou a falhar
devagarinho.
Promessas em direto,
silêncio em diferido
O guião é conhecido: na hora
do drama, o poder central aparece, garante apoios, reconstrói esperanças,
promete rapidez e eficácia, fala de “não deixar ninguém para trás”. Passados
meses, e agora mais de um ano, o que sobra muitas vezes é burocracia, relatórios,
dossiês que circulam entre gabinetes enquanto pessoas reais continuam a viver
em casas emprestadas, em quartos provisórios, em vidas suspensas.
Em Albergaria-a-Velha, o
caso do Orlando mostra como a palavra dada pelo topo do Estado pode ficar a
meio caminho entre o discurso empático e a prática indiferente. A pergunta que
se impõe é simples, e corrosiva: se o Estado falha assim num concelho concreto,
com plena atenção mediática, o que acontecerá a quem nem sequer chega às
notícias.
Da urgência da reconstrução
ao abandono da prevenção
No artigo que escrevi em 16 de janeiro de 2025, quatro meses após os incêndios, as perguntas incómodas
estavam todas lá: o que andam a fazer Câmara Municipal e restantes autoridades
na prevenção, na coordenação, no reordenamento florestal, na criação de faixas
de contenção, na fiscalização de terrenos, na substituição de monoculturas por
espécies autóctones. Interrogava o estado da limpeza dos terrenos, a ausência
de planos claros, a desativação de estruturas de vigilância, a falta de
envolvimento sério da comunidade e dos agentes económicos.
De igual modo, lembro os impactos sobre a população. Hoje, olhando para o
território, continuamos, todos, a ver demasiada área ao abandono, um mosaico de
combustível à espera de uma nova faísca, como se o incêndio de 16 de setembro
de 2024 tivesse sido apenas um parêntesis trágico e não um ponto de viragem
obrigatório. Falou-se em planos, em prevenção, em “nunca mais”, mas, no
terreno, a sensação é a de um concelho em pausa, à espera da próxima catástrofe
para voltar tudo ao mesmo ciclo de promessas, lágrimas e esquecimento.
Quando o poder troca as
pessoas pelos processos
O mais grave é esta
tendência do poder, central e local, para trocar a defesa das populações pela
defesa dos procedimentos. Em vez de perguntar “já reconstruímos a casa do
Orlando, sim ou não”, prefere perguntar “em que fase está o processo”, “que
despacho falta”, “que verba ainda não foi desbloqueada”.
Enquanto isso, quem perdeu
tudo continua a viver num limbo administrativo, sem casa, sem estabilidade, sem
a sensação básica de que o Estado que prometeu, cumpre. E em torno destes casos
concretos instala-se uma espécie de anestesia coletiva, uma resignação cínica
que normaliza o inaceitável, como se fosse inevitável que, passado o fogo,
arrefecesse também a responsabilidade política.
A escolha entre memória e
repetição
Quatro meses depois dos
incêndios, defendi que “mais vale pecar por ação do que por omissão”, e que era
urgente escrutinar, responsabilizar e agir, para não voltarmos a passar pelo
trauma de 16 de setembro de 2024. Hoje, com o Orlando ainda sem casa e a floresta
em muitos pontos por ordenar, percebe-se que parte desse apelo ficou por ouvir,
ou foi comodamente arquivado em alguma gaveta institucional.
O problema já não é só o fogo que tivemos, é o fogo que estamos a preparar, com a soma de terrenos ao abandono, procedimentos sem fim e promessas de reconstrução que ficam pelo caminho. Em última análise, o que está em causa é isto: ou a memória serve para mudar políticas e prioridades, ou limitamo-nos a repetir o ritual, até ao próximo Orlando, à próxima família, ao próximo concelho a descobrir que, quando as luzes se apagam, continua sem teto.
- Obter link
- X
- Outras aplicações

Comentários
Enviar um comentário