Mudança aos semáforos: o paradoxo de permanecer na travessia

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"É preciso que algo mude se queremos que tudo fique na mesma."

(Príncipe de Salina, 'O Leopardo', Luchino Visconti - 1963)


 


Na neblina dos nossos dias, quando tudo parece suspenso entre um vermelho intenso e um azul de espera, ecoa a velha máxima do Príncipe de Salina: “É preciso que algo mude se queremos que tudo fique na mesma.”


Como os fachos cruzados do semáforo, somos criaturas de interseção: o desejo de mudança camufla-se na inquietante segurança do costume. Mudar para que nada se perca, transformar para que possamos, ironicamente, ficar imóveis na essência.


A vida, por vezes, é mesmo isso: pedimos novidade com voz ribombante, mas rezamos em surdina pelo regresso ao conforto. No cruzamento de vontades e renúncias, a luz brilha estranhamente bela.


E, afinal, não será a rotina também uma proeza da reinvenção? Cada cor, uma promessa que nunca se cumpre plenamente. Cada trilho, uma esperança adiada, mas teimosamente persistente.


 

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