O Mar ensina o que a vida insiste em esquecer

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"A cada manhã o mundo é novo para mim."
Sidonie Colette


A cada manhã o mundo é novo para mim, dizia Colette, e talvez tenha sido o mar a ditar-lhe essa evidência. Também eu encontro nas ondas, nas suas rugas intermináveis, a mais antiga das promessas: nada fica onde está, tudo recomeça, tudo respira de novo. O mar é uma liturgia sem templo, uma biblioteca sem livros, um mestre sem diploma. E, no entanto, ensina mais do que muitas academias onde se colecionam créditos, mas não sabedoria.


Quando caminho pela areia, com as pedras dispersas como pequenos testemunhos de viagens longínquas, reencontro aquela energia primitiva que, em criança, julgava inesgotável. O mar devolve-ma, sem burocracias nem avisos prévios. Há quem fale em terapias alternativas, mas poucas substituem o som obstinado das ondas que insistem em rebentar, mesmo quando o mundo parece ter desistido de nós. A obstinação do mar lembra-me que continuar é, muitas vezes, o único acto de coragem verdadeiramente necessário.


O mar tem o dom de despir as máscaras que acumulamos na cidade, no trabalho, nas responsabilidades que levamos às costas como se fossem tatuagens obrigatórias. Ali, diante daquela planície agitada, não há curriculum vitae que nos valha, nem organograma que nos defina. Há apenas o essencial, que tantas vezes esquecemos: o corpo cansado, a alma ferida, a vontade de reencontrar um sentido qualquer entre a espuma e o vento. E o mar, paciente, permite essa cura, essa descompressão que raramente cabe nos horários institucionais.


Gosto de pensar que cada onda traz uma nota de rodapé ao que sou. Pequenas revisões, ligeiras erratas, versões aprimoradas de mim próprio. É como se o mar insistisse na ideia de que ninguém é definitivo. E ainda bem. Vivemos numa época obcecada pela imutabilidade, onde todos parecem exigir de todos coerências de arquivo morto. O mar, pelo contrário, muda todos os minutos e, paradoxalmente, é sempre o mesmo. Bem me queria parecer que é essa a verdadeira sabedoria, muito mais fiel ao que Bergson chamaria de fluxo vital do que às certezas rígidas que a política contemporânea tanto idolatra.


Quando o mar recua, leva consigo algumas das minhas inquietações. Não todas, claro, que também não vale a pena pedir milagres. Mas o suficiente para eu perceber que viver é um jogo de contenção e libertação, um vaivém constante entre o que nos fere e o que nos salva. E, curiosamente, o mar salva sem moralizar. Não exige sacrifícios, não cobra dízimos, não publica relatórios anuais sobre o estado emocional de quem o procura. Está ali, disponível, democrático, igualitário como poucas instituições públicas sabem (ou querem) ser.


Talvez seja por isso que volto sempre. Porque no mar reencontro o meu pai tipógrafo e a minha mãe de mãos firmes no hospital. Reencontro o Campinho, as origens que me alimentam quando o quotidiano tenta moer-me a espinha. Reencontro a simplicidade do essencial, o valor das raízes, a dignidade silenciosa dos que fazem sem alarde. O mar lembra-me de onde venho e empurra-me, com a mesma força, para onde ainda posso ir.


A cada manhã o mundo é novo para mim, sim. E se o é, devo-o muitas vezes ao mar, esse velho amigo que nunca se cansa de repetir a lição: toda a vida se recomeça, mesmo quando julgamos não ter mais páginas em branco.

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