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Vivemos na era em que o valor de uma pessoa se mede a prestações, mas não naquelas que exigem esforço, carácter ou decência. Não. Mede-se em prestações visíveis, fotografáveis, exibíveis. Sapatos que custam meio ordenado, colares que poderiam pagar rendas, telemóveis mais inteligentes do que os seus proprietários. E, no entanto, há um detalhe curioso: quanto mais sobe o preço do acessório, mais desce o valor da substância.
A humildade tornou-se um artigo fora de catálogo. A postura, um produto descontinuado. Ambas substituídas por uma inflação galopante de ego, financiada a crédito emocional e sustentada pela aprovação instantânea de desconhecidos.
Há quem invista milhares para parecer alguém, quando bastaria investir silêncio para ser alguém. Porque o verdadeiro estatuto nunca precisou de logótipo. A dignidade não se compra, exerce-se. O respeito não se ostenta, conquista-se.
Mas há uma tragédia silenciosa neste desfile de etiquetas, estas pessoas tornaram-se vitrinas ambulantes, montras sem conteúdo, embalagens luxuosas com vazio em saldo. Caminham com a arrogância de quem pensa que o brilho exterior ilumina o interior, quando, na verdade, apenas denuncia a escuridão.
Como escreveu Antoine de Saint-Exupéry, o essencial é invisível aos olhos. O problema é que muitos já nem procuram o essencial. Procuram o visível. O caro. O admirado. O invejado.
Confundiram valor com preço.
E há uma diferença brutal entre ambos, o preço compra-se. O valor revela-se.
No fim, resta uma evidência cruel e implacável: aquilo que vestimos pode impressionar durante segundos. Aquilo que somos, denuncia-nos para sempre.
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