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Aí que o meu sentir vago e profundo
O seu lugar exterior conheça,
Aí durma em fim, aí enfim faleça
O cintilar do espírito fecundo.
Fernando Pessoa
Obra Poética e em Prosa. Vol. I.
Quando vi esta imagem, soltei com pronta ingenuidade: "parece feita à medida da frase de Pessoa": o sentir vago e profundo, para ganhar “lugar exterior”, precisa de ser dado em pedaços, como o corpo esburacado da figura que estende o pequeno cubo.
É o retrato de quem passa a vida a oferecer o melhor de si, até ficar feito puzzle incompleto, enquanto o outro recebe apenas um fragmento limpo, arrumado, pronto a encaixar num quadrado asséptico no peito.
Há muito aqui de gente como nós: o indivíduo que se desgasta na sua demanda profissional, o cidadão que entra e sai da política local sem dourar a própria biografia, o miúdo que aprendeu cedo que dar de si não é necessariamente ser reconhecido.
Talvez o “cintilar do espírito fecundo” de que fala Pessoa seja isto: uma luz que se vai repartindo em pequenos cubos de presença, tempo, cuidado, aulas preparadas, textos escritos, até o corpo ficar cheio de ausências, mas a consciência, curiosamente, mais inteira.
O risco é confundir entrega com autoaniquilação, como se a única forma de amar, ensinar ou servir fosse desaparecendo. A luta de cada um dos mortais, hoje, parece ser outra: continuar a dar o que importa, mas recusar o papel de figura oca, sem contorno próprio.
Porque a verdadeira generosidade não é morrer em silêncio por dentro. É ensinar, a quem recebe, que também terá de se desfazer um pouco, um dia, para que o mundo não fique sempre nas costas dos mesmos.
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