A arrogância como forma de poder

k.png


"Arrogância: tendência para dominar os outros para além dos próprios e legítimos direitos e méritos."

Textos Cristãos

 


A arrogância é, antes de mais, uma forma de cegueira: o arrogante olha para o mundo como se estivesse diante de um espelho e, em vez de ver os outros, vê apenas o reflexo inflacionado de si próprio. A citação acima é certeira: a arrogância é precisamente esse abuso de espaço, uma ocupação abusiva do território alheio, emocional, profissional, político, que não se contenta em existir, precisa de se impor. Quem se julga acima de todos, não discute, decreta. Não dialoga, sentencia.


O problema é que a arrogância não vive sozinha, traz quase sempre dois primos incómodos: o medo e a cobardia. O arrogante precisa de plateia submissa, de gente que acene com a cabeça, de colegas que se encolham, de cidadãos que desistam. E é aqui que a liberdade, essa palavra gasta em discursos solenes, começa a emagrecer. A cada silêncio cúmplice, a cada “deixa lá, não vale a pena”, a cada vez que se cala a discordância por conveniência ou cansaço, a arrogância ganha mais um tijolo no muro que ergue entre o poder e a responsabilidade.


Nos espaços profissionais, nas escolas, na política local ou nacional, a mesma coreografia repete-se: perfis medíocres, mas estridentes, usam cargos, títulos e pequenos poderes para sufocar ideias, desvalorizar percursos, apagar méritos alheios. Arrogam-se donos da verdade, da instituição, até do futuro dos outros. E fazem no com pose de serviço público, como se a sua soberba fosse uma espécie de missão civilizadora.


A ironia é cruel: quem menos sabe, muitas vezes, é quem mais se sente autorizado a humilhar, desconsiderar ou tutelar os demais.


Toda a arrogância é, no fundo, falta de consciência do limite. Num tempo em que a liberdade já parece ter conhecido melhores dias, a tarefa de quem recusa esse jogo é dupla: resistir à tentação de responder com igual soberba e, simultaneamente, não ceder um milímetro de dignidade. Não se trata de ser “bonzinho”, trata-se de ser firme.


A liberdade não desaparece num golpe de teatro, vai-se esvaziando em pequenas concessões, em reuniões onde ninguém ousa levantar a mão, em assembleias onde as perguntas incómodas deixam de ser feitas, em espaços públicos onde a crítica é caricaturada como ingratidão ou ressentimento.


Talvez a resposta mais radical à arrogância seja esta: continuar a pensar, a questionar, a argumentar, a criar, mesmo quando o ambiente tenta empurrar-nos para a resignação.


O arrogante precisa de aplauso, não sabe lidar com a serenidade firme de quem não se verga nem dramatiza. Há uma espécie de revolução silenciosa em recusar o papel de figurante no teatro da vaidade alheia.


E, enquanto houver quem escreva, quem ensine, quem vote, quem diga “não” com calma e clareza, a liberdade pode estar ferida, mas não está vencida.

Comentários