A ilha onde a razão não aporta

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A lucidez também cansa

 

Machado de Assis tinha este dom desconfortável: dizer verdades simples com um sorriso oblíquo. A loucura como ilha perdida no oceano da razão não é um elogio ao desvario, é antes uma constatação cansada.

Quem nada sempre em linha recta acaba por se afogar na própria coerência. Há dias em que a razão pesa, oprime, vigia. E então a loucura surge não como fuga, mas como abrigo.

A imagem ajuda. Um caderno aberto diante do mar. A escrita imperfeita, quase escolar, lembra-nos que pensar não tem de ser asséptico. A razão institucionalizou-se, tornou-se formulário, despacho, norma. A loucura, essa, permanece artesanal. Escreve-se à mão, à beira do oceano, com vento a desarrumar certezas.

Também na vida pública e profissional, sobretudo na Escola, a razão tem sido confundida com obediência. Mede-se tudo, avalia-se tudo, gere-se tudo. Falta espaço para a ilha. Falta tempo para errar com dignidade, para discordar sem relatório, para sentir sem rubrica. Talvez por isso tantos chamem loucos aos que ainda pensam fora do manual.

A verdadeira insanidade é acreditar que a razão, sozinha, nos salvará. Sem poesia, sem dúvida, sem alguma desobediência íntima, a razão transforma-se em mar morto.

E ninguém vive bem em águas paradas.

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