A política entrou na Escola pela porta da gestão

k.jpg


 


A imagem não engana: o lobo discursa, o cordeiro aprende a baixar a cabeça. Na Escola contemporânea, a hipocrisia ganhou secretária própria e agenda cheia. Manifesta-se com especial requinte na gestão de agrupamentos conduzida, muitas vezes, por quem, há muito, trocou a sala de aula pelo gabinete, o pó do giz pelo brilho do PowerPoint, o aluno real pelo indicador estatístico.


Exige-se inovação pedagógica a quem todos os dias enfrenta turmas heterogéneas, contextos difíceis e programas extensos, mas decide-se à distância, sem campainha, sem recreio, sem indisciplina, sem cansaço. Fala-se de empatia educativa a partir de relatórios, de inclusão a partir de gráficos, de sucesso escolar a partir de metas que ignoram rostos e histórias. É a pedagogia do lobo, com voz mansa e sombra pesada.


Enquanto professor, sei que ensinar não é um exercício teórico, é corpo presente, tempo gasto, desgaste assumido. Quem já não dá aulas há anos, mas continua a legislar sobre metodologias, avaliação e ritmos de aprendizagem, pratica uma hipocrisia funcional: exige aquilo que já não pratica e, pior, aquilo que já não consegue praticar.


Também na política reconheci este padrão. O afastamento progressivo do terreno gera discursos cada vez mais moralistas e decisões cada vez menos humanas. Governa-se melhor quando se esquece o chão que se pisa. Na Escola e na política, a lógica repete-se: quem perde contacto com a realidade passa a geri-la como se fosse um problema abstrato.


A autoridade, porém, não nasce do cargo. Nasce do exemplo. E quando o exemplo falta, sobra a sombra, longa, fria e profundamente injusta.

Comentários