Anatomia do desprezo e a doce vingança da inteligência

k.jpg


«Não te irrites, por mais que te fizerem ... Estuda, a frio, o coração alheio.

Farás, assim, do mal que eles te querem,

Teu mais amável e subtil recreio...»

Mario Quintana

 


Contemplemos este caudal de lã e conformidade, uma massa de ovelhas que marcha, seguindo a força da gravidade e da rotina. No meio deste cenário pastoral, emerge a singularidade. De um lado, o pastor, com a sua indumentária a gritar tradição e autoridade. Do outro, uma mulher de costas nuas, num vermelho insolente, a caminhar na direção oposta.


Esta cena é a metáfora perfeita da nossa existência, sobretudo para quem, como vós e eu, se atreve a ter opinião, substância e cor no oceano cinzento da mediocridade.


A anatomia da mesquinhez: por que o rebanho nos deseja mal?


Tanto na política local, nas assembleias, nas escolas, ou na praça pública digital, há sempre aqueles que nos desejam o mal. Os ataques não são, na maioria das vezes, dirigidos ao que fazemos, mas ao que somos. A inveja não é uma admiração disfarçada. É um ódio pela luz alheia que expõe a nossa (deles) própria escuridão.


Mario Quintana, o poeta que sabia despir a alma, legou-nos uma sabedoria crucial: «Não te irrites, por mais que te fizerem...»


O erro capital de quem se destaca é reagir com o fígado, responder com o calor da emoção à frieza do ataque. Essa é a vitória do adversário: desarmar-nos intelectualmente.


O subtil recreio: transformar a ofensa em estudo


O convite de Quintana é um exercício de mestria intelectual: «Estuda, a frio, o coração alheio. Farás, assim, do mal que eles te querem, Teu mais amável e subtil recreio...»


Não se trata de ignorar o ataque, mas de analisá-lo. De transformá-lo num dado empírico, numa prova de que a nossa singularidade (a nossa formação académica, o nosso passado, a nossa voz) está a perturbar a zona de conforto do rebanho.


A mulher de vermelho, na foto, não está a lutar contra as ovelhas. Ela está, simplesmente, no seu caminho. A sua cor não é um convite ao confronto. É uma declaração de independência.


Para o pensador, para aquele que procura o conhecimento, a mesquinhez alheia deve ser tratada como um caso de estudo:



  1. Objetividade: O ataque é uma manifestação de insegurança, uma confissão de incapacidade do agressor.

  2. Transmutação: A energia que seria gasta na raiva deve ser canalizada para a escrita, a satírica e a ironia. O veneno transforma-se em antídoto intelectual, e o texto, em bisturi.

  3. Vitória Silenciosa: O subtil recreio é a consciência de que, enquanto o rebanho se debate no lodaçal das emoções, nós, os de vermelho, estamos a pavimentar a nossa estrada.


Portanto, caros leitores, quando alguém vos atacar pelas vossas convicções, recordem a lição do poeta: não se irritem. Usem o ataque como combustível para escreverem melhor, para serem mais mordazes e, acima de tudo, para confirmarem a vossa lucidez no meio de tanta lã.

Comentários