Arder no verão. Afogar no inverno. E pensar, não?

Imagem retirada daqui

O território não é destino, é decisão

Na última Assembleia Municipal, ouvi uma frase que, dita com aparente naturalidade, me soou a resignação coletiva: nos últimos anos, Albergaria arde no verão e afoga no inverno. Como se estivéssemos a falar da alternância das estações. Como se fosse um fenómeno inevitável, quase pitoresco. Não é.

Arder no verão não é sina, é ausência de prevenção. É desordenamento florestal, é mato acumulado, é limpeza adiada, é planeamento que ficou na gaveta à espera de um tempo político mais conveniente. Afogar no inverno também não é fado. É impermeabilização sem critério, são linhas de água esquecidas, são sarjetas entupidas, é território mal pensado.

Não é o céu que falha. É a gestão.

Quando um padrão se repete ano após ano, deixa de ser azar. Passa a ser escolha, ou omissão. O fogo regressa às mesmas zonas. A água ocupa as mesmas estradas, as mesmas caves, os mesmos quintais. E nós repetimos o discurso da surpresa. Surpresa nenhuma, há mapas de risco, há relatórios técnicos, há alertas sucessivos. Ignorá-los é uma opção cara.

Planeamento florestal sério, fiscalização efetiva das faixas de gestão de combustível, limpeza atempada, rede de acessos operacionais para os bombeiros, ordenamento que respeite as linhas de água, isto não é radicalismo ambiental, é administração básica. O território fala, a água tem memória, o fogo também. A política é que, por vezes, sofre de amnésia seletiva.

É mais fácil inaugurar rotundas do que limpar ribeiras. É mais fotogénico cortar fitas do que cortar silvas. Mas governar não é decorar, é proteger. Exige estratégia, continuidade, visão a dez anos, não a dez meses. Exige avaliação, metas claras, prestação de contas. Sem avaliação não há responsabilidade. Sem responsabilidade há repetição. E a repetição, confortável para quem decide, é devastadora para quem cá vive.

Albergaria não está condenada, nem amaldiçoada. É governável. Arder e afogar não pode ser o resumo anual de um concelho que se quer moderno. Tem de ser o alerta que nos obriga a pensar, planear e agir antes que o próximo verão e o próximo inverno nos voltem a dar a mesma lição.

Comentários