Barquinhos de papel e almas sem peso

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As lentas nuvens fazem sono,

O céu azul faz bom dormir.

Bóio, num íntimo abandono,

À tona de me não sentir.



E é suave, como um correr de água,

O sentir que não sou alguém,

Não sou capaz de peso ou mágoa.

Minha alma é aquilo que não tem.



Que bom, à margem do ribeiro

Saber que é ele que vai indo...

E só em sono eu vou primeiro.

E só em sonho eu vou seguindo.



Fernando Pessoa


 


Há dias em que a alma precisa de se fazer barquinho de papel, largar a margem, esquecer o relógio e boiar um pouco, à tona de não ser ninguém.


Pessoa sabia, antes de todos nós, que há um cansaço de existir que só se cura com esta delicada arte de não sentir o próprio peso.


O pequeno barco que o mar embala, com as flores à proa, parece um corpo que finalmente desaprende a urgência de chegar. Vai indo, como o ribeiro do poema, enquanto o sonho vai seguindo, manso, à distância certa de todas as mágoas que a vida adulta insiste em colecionar.


Talvez educar - e educar-se - seja isto: ensinar a fechar os olhos sem culpa, a encostar a cabeça às nuvens lentas, a aceitar que, por momentos, a única tarefa digna é deixar a alma ser aquilo que não tem.


Porque o verdadeiro naufrágio não é perder o rumo. É esquecer a doçura de se deixar levar.

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