Entre tostões e ouro: a economia obscena das palavras

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"As palavras são os trocos do pensamento. Há faladores que nos pagam em moedas de dez tostões. Outros, pelo contrário, dão-nos peças de ouro."


Jules Renard


Algumas pessoas pagam em palavras como quem despeja trocos miúdos em cima do balcão: fazem barulho, ocupam mesa, mas não compram rigorosamente nada. Outras, raras, falam pouco e, quando o fazem, a frase cai como moeda de ouro, com peso específico, valor real, responsabilidade assumida.


Das relações quotidianas


Nas relações profissionais, abundam os oradores de tostão: reuniões intermináveis, relatórios vazios, e‑mails que não dizem nada de relevante, mas ficam muito bem arquivados na pasta “evidências de trabalho”. O discurso sobre colaboração, bem‑estar e inovação esgota‑se em slogans de cartaz, enquanto a prática diária continua feita de silêncios cúmplices, omissões e pequenas covardias.


Nas equipas, como nas direções, vêem‑se especialistas em retórica motivacional que distribuem promessas como brindes de feira, porém incapazes de uma frase honesta quando é preciso defender alguém, reconhecer um erro ou assumir uma decisão difícil.


Nas relações pessoais e familiares, a inflação verbal não é menor. Fala‑se muito de amor, respeito, diálogo, mas continuam por dizer as frases realmente caras: “errei”, “preciso de ajuda”, “não sei”, “tenho medo”. Multiplicam‑se likes, emojis e declarações públicas, enquanto, à mesa, cada um se esconde atrás do seu ecrã, pagando ao outro com migalhas de atenção.


É o tempo das relações low‑cost: muito ruído afetivo, pouco investimento emocional, um catálogo de palavras bonitas que vêm sem garantia e sem prazo de validade.


A política dos dez tostões


Na política, sobretudo na política local, o câmbio é ainda mais grotesco: programas cheios de chavões, comunicados triunfais por feitos mínimos e uma liturgia de homenagens e inaugurações onde a palavra “serviço público” é repetida até perder o significado.


Prometem‑se mundos e fundos em campanha, para depois, no poder, se pagar ao eleitorado em discursos de circunstância, notas de imprensa e fotografias em pose ensaiada. A oratória de dez tostões compra tempo, fidelidades e manchetes, mas não resolve saneamento, não conserta escolas, não devolve transparência aos orçamentos.


Quando, por acidente, aparece alguém que fala pouco e diz o que pensa, sem almofadas nem rendas, rapidamente é catalogado como incómodo, antipático ou “pouco político”.


O sistema foi desenhado para premiar o falador que baralha a plateia com moedas miúdas de linguagem, não para valorizar quem, com duas ou três frases diretas, desnuda a encenação. Talvez a grande reforma que falta à democracia, e à vida em sociedade, não seja apenas eleitoral, mas lexical: aprender a distinguir trocos de ouro, recusar a verbosidade que compra silêncio e aplaudir, sem medo, quem paga o debate público com pensamento sério, exigente e consequente.

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