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A epidemia do cansaço performativo: quando o lamento suplanta o esforço
Há por aí uma nova epidemia, daquelas que não passa nos
telejornais: a pandemia do cansaço performativo. Gente fresca, rosadinha, com
ar de quem dorme oito horas, faz sestas ao fim de semana, vai ao brunch e ainda
tem tempo para séries e ginásio, mas que abre a boca sempre com o mesmo refrão:
“Estou tão cansado… Nem imagina…”
Cansadas de quê, exatamente? De mandar dois emails, ir a uma
reunião e carregar no “enviar” do Teams? De terem um dia “cheio” porque tiveram
de abrir três fichas em PDF e carregar num link? É um cansaço muito curioso:
não lhes pesa no corpo, só no discurso. O cansaço virou credencial, crachá,
cartão de visita. Não trabalham muito, mas cansam-se imenso… de falar sobre o
quanto trabalham.
Depois há o outro lado. Os tipos que andam a funcionar à
base de comprimidos para dormir, comprimidos para não desmaiar, cafés em série
e uma agenda que não cabe em lado nenhum. Gente que trabalha até cair, que
chega a casa arrastada, que passa noites a preparar coisas, a pensar em
problemas, a resolver o que ninguém vê. Gente que, no dia seguinte, aparece:
faz o que tem de ser feito, aguenta, segura o barco. Esses, regra geral, dizem
só: “Vamos andando”.
É fascinante ver como o mundo aplaude os mártires de cartão.
Os que dramatizam cada tarefa: “Foi um dia puxado…”, “Nem tive tempo para
respirar…”, “Isto está impossível…”. Depois vamos a ver, e o “dia puxado” cabia
num horário de part-time. A produtividade é baixa, o ruído é altíssimo.
Trabalham pouco, mas cansam muito o ambiente à volta. Mas, curiosamente, são
vistos como dedicados, empenhados, quase heróis do esforço.
O silêncio dos que seguram o mundo: os verdadeiramente exaustos não têm tempo para dramatizar
Já os que se levantam cedo, voltam tarde, vivem carregados
de responsabilidades, carregam a casa às costas, a escola às costas, os miúdos
às costas, o trabalho às costas, esses não têm tempo para espetáculo. Não se
vendem como mártires, não se autofotografam em modo sofrimento, não fazem
conferências de imprensa sobre o seu esgotamento. Engolem, em seco, tomam a
medicação, respiram fundo e seguem. Sem medalha. Sem palmas. Sem post
motivacional.
No fim, o que se vê é isto: o cansaço verdadeiro é
silencioso.
O falso cansaço é barulhento, teatral, dramático. O autovitimismo, chamemos-lhe
assim, é uma forma muito conveniente de esconder a preguiça e a lei do menor
esforço com um verniz de “sou tão dedicado que até fico exausto”.
Não são exaustos. São é pouco dados ao trabalho e muito dados à narrativa.
Talvez um dia se aprenda a diferença entre estar cansado de
fazer e estar cansado de existir.
Até lá, os que realmente se sacrificam vão continuar invisíveis, sem
condecorações, sem discursos, sem palco.
Os outros continuarão a desfilar o seu cansaço cor de rosa, muito bem penteado,
muito bem ensaiado.
E o mais irónico é isto: quando, um dia, os verdadeiramente cansados caírem, o
mundo vai perguntar, muito surpreendido: “Mas estava assim tão mal?”
Estava. Só não andava aí a fazer disso profissão.
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