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"Quem fica calado também fala"
Mia Couto
(provérbio Yao – p. 157)
"A Cegueira do Rio"
Ed. Caminho, Lisboa, 2024.
A cena é um clássico doméstico: ele, num roupão xadrez que mais parece um pedido de socorro da moda, decide fazer uma "revelação" performativa na cozinha. O silêncio dele é uma cacofonia de exibicionismo desesperado, um "olha-para-mim" que reverbera nas paredes da cozinha.
Do outro lado, ela. Óculos na ponta do nariz, uma xícara nas mãos e um olhar que atravessa não apenas o roupão, mas séculos de tentativas masculinas fracassadas de impressionar. O silêncio dela é o vácuo que engole o ego dele. É um silêncio que diz: "Já vi isso tantas vezes que nem me dou ao trabalho de revirar os olhos". É o silêncio da experiência, da exaustão e do desdém, tudo condensado numa expressão facial que vale mais que qualquer sermão. O roupão dele grita pretensão. O silêncio dela sussurra: "Tanta encenação para tão pouca surpresa".
Quem cala, neste caso, não apenas fala, mas dá um "manguito" verbal monumental.
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