O triunfo dos infames e o naufrágio dos justos

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Há uma crueza quase pornográfica na forma como Luís de Camões expõe as entranhas do mundo. Uma observação que, passados cinco séculos, mantém a frescura de uma ferida aberta.

Ao afirmar que viu os bons passar "graves tormentos" enquanto os maus nadam em "mar de contentamentos", o poeta não faz apenas um lamento lírico: faz uma leitura sociológica e política que permanece irrefutável.

O mundo não é, nem nunca foi, uma meritocracia da virtude. É, antes, um palco onde a falta de escrúpulos funciona como o melhor dos coletes salva-vidas. Enquanto os homens de princípio se afogam no rigor das suas convicções, os medíocres e os vis deslizam, com uma elegância insultuosa, sobre as águas mansas da fortuna.

A injustiça como ordem natural

Esta visão camoniana retira-nos o tapete do conforto moral. Aceitar que o mal é, tantas vezes, recompensado com a bonança exige um estômago que a educação cristã e humanista raramente nos prepara para ter. Contudo, é nesta indignação que reside a nossa última linha de defesa. Ver os "maus" a nadar em contentamento deveria espantar-nos sempre, como espantava o poeta. O dia em que deixarmos de nos espantar com a prosperidade do vilão será o dia em que a nossa própria integridade terá naufragado.

Que o "mar de contentamentos" alheio não nos seduza ao cinismo, mas que nos sirva de farol para manter a rota, ainda que a nossa barca seja fustigada por todas as tormentas da honra.

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