Porta para o abismo interior: o mar onde me perdi

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Dispersão

"Perdi-me dentro de mim
Porque eu era labirinto,
E hoje, quando me sinto,
É com saudades de mim.

Passei pela minha vida
Um astro doido a sonhar.
Na ânsia de ultrapassar,
Nem dei pela minha vida..."


Há portas que se abrem para paisagens e há portas que se abrem para feridas. Vê-se ali na imagem um caminho de pedra que desemboca no azul imenso do mar, mas a poesia de Mário de Sá Carneiro avisa-nos que o maior oceano é o de dentro: perder-se em si, ser labirinto, sentir saudades de um “eu” que ficou algures para trás.

O portão gasto, entre flores e sombras, parece a fronteira entre o mundo que a vida espera e o mundo que o sujeito poético já não habita. Enquanto os outros caminham para a praia, ele move-se como “astro doido”, sempre a ultrapassar-se, sempre a tentar chegar a qualquer lugar que nunca é este, o agora, o concreto.

Talvez a grande tragédia moderna seja exatamente essa: atravessamos portais, acumulamos paisagens, mas não chegamos verdadeiramente a nós. A porta aberta sobre o mar torna-se então convite e desafio: ter coragem de parar, de olhar o desvio, de regressar ao próprio centro, antes que a vida, tão breve, nos atravesse sem que tenhamos dado pela vida.

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