Quando a memória engorda o coração

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«A memória é o espelho onde observamos os ausentes.»
Joseph Joubert 

 

A frase de Joubert assombra-me com a delicadeza de quem conhece bem as casas vazias: a memória é o espelho onde observamos os ausentes. Nesse espelho, como neste beco onde um gato gigantesco ocupa toda a rua, as lembranças também crescem desmesuradas, maiores do que eram, enormes como a falta que nos fazem. Um cheiro, um objeto esquecido, um miar distante: de repente, o passado instala-se no presente como este felino colossal, impedindo a passagem, obrigando-nos a parar.

Talvez seja isso o luto: aprender a atravessar ruas ocupadas por presenças que já não cabem no mundo visível. A certa altura, como o homem da imagem, percebemos que o que levamos na mão, a pequena transportadora, são apenas restos do quotidiano, enquanto o verdadeiro animal, a saudade, se estende à nossa frente, majestosa, impossível de ignorar. Fingir que não está ali é enganar o espelho, mas o espelho, teimoso, devolve-nos sempre o mesmo olhar: aquele que já partiu continua a morar nas esquinas da nossa memória.

Com o tempo, descobrimos que não precisamos de encolher o gato. Precisamos de alargar a rua. Abrir espaço para conviver com o que dói sem deixar de caminhar. A memória deixa de ser apenas o retrato dos ausentes e torna-se uma forma de companhia, às vezes serena, outras vezes desconfortável, mas inevitavelmente nossa.

Nesse exercício, aprendemos a agradecer o que foi, a aceitar o que não volta e a seguir, passo a passo, com o coração ligeiramente mais pesado, é certo, mas também mais inteiro.

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