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A saudade que não pede desculpa
Há uma saudade que chega sem cerimónia. Senta-se connosco à mesa e não pede licença. Não é nobre, não é épica, não é dessas que a literatura canonizou com maiúscula. É idiota, como lhe chamou Ita Portugal, porque não serve para nada prático: não resolve, não avança, não paga contas. Limita-se a existir. E isso basta-lhe.
A máquina de escrever da imagem acima sabe-o bem. Cada tecla carrega não apenas uma letra, mas um tempo. Um tempo em que as palavras demoravam a nascer, em que errar custava mais, em que pensar era obrigatório antes de escrever.
Hoje escreve-se depressa, apaga-se sem dor, publica-se sem pudor. Talvez por isso a saudade tenha ganho este tom absurdo, quase infantil, como quem sente falta do que já nem sabe explicar.
Tenho saudade de pessoas que já não são, de lugares que mudaram de nome, de silêncios que hoje seriam mal interpretados. Saudade de quando a docência era mais vocação do que gestão, mais relação do que relatório, mais presença do que plataforma. Saudade de quando se errava devagar e se aprendia com isso.
A saudade idiota não quer cura. Quer apenas ser reconhecida. É a memória a lembrar-nos que fomos inteiros, mesmo quando éramos frágeis. E isso, convenhamos, é tudo menos idiota.
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