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A imagem é cruelmente honesta: manda tirar uma selfie, o espelho devolve a sentença, finge uma vida.
Há dias em que a sensação é exatamente essa: o corpo comparece, o olhar posa, mas a alma falta à fotografia. O resultado é uma galeria cheia de caras e quase vazia de verdade.
Talvez a maior pandemia silenciosa seja esta urgência de provar que se existe, acumulando cliques, likes e comentários, enquanto a vida, a sério, fica em modo rascunho, adiada para depois. O problema não está na selfie, está naquilo que tentamos esconder com ela: o medo de não sermos suficientes, o receio de dececionar, a vergonha das nossas falhas e fragilidades. Fingir uma vida é também uma forma de pedir ajuda, só que em mudo.
Chegado a uma certa idade, e com as cicatrizes todas à mostra, aprende-se que a grande revolução não é ter uma imagem perfeita. É ter uma vida habitável. Campinho, o bairro onde cresci, ensinou-me isso com brutal simplicidade: quem tem pouco, mostra tudo, não há luxo para disfarçar a alma.
Talvez por isso, sempre que o ecrã me pede mais uma pose, lembro-me do miúdo de chinelos de borracha, joelhos esfolados e um riso inteiro, sem filtro, e pergunto me: este homem de hoje ainda se reconhece naquele sorriso?
Ser autêntico não é despejar tudo nas redes. É alinhar, com alguma honestidade, o que se vive por dentro com o que se exibe por fora. É permitir-se estar cansado, imperfeito, às vezes triste, outras vezes brilhante, mas sempre verdadeiro. A selfie pode ser um registo de um momento, não precisa de ser um currículo emocional nem uma peça de ficção científica. Talvez a pergunta certa, antes de publicar, não seja: será que vão gostar de mim, mas: eu, que tenho de viver comigo, gosto da pessoa que aqui aparece?
E se, em vez de fingir uma vida, começássemos a escrever a nossa, com o lápis torto que temos, nas páginas reais que o tempo nos oferece. Não haverá sempre boa luz, nem bons ângulos, nem filtros salvadores, mas haverá história, haverá caminho, haverá sentido.
No fim, quando o espelho já não devolver selfies, o que fica não são as poses, são os encontros, as mãos que segurámos, as crianças que ensinámos, as causas que abraçámos, as derrotas que sobrevivemos.
O resto, por muito que brilhe, não passa de néon a piscar numa parede escura.
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