Verões que ainda duram

k.jpg


Foto de Federico Patellan


"Há dias em que julgamos

que todo o lixo do mundo nos cai

em cima. Depois

ao chegarmos à varanda avistamos

as crianças correndo no molhe

enquanto cantam.

Não lhes sei o nome. Uma

ou outra parece-se comigo.

Quero eu dizer: com o que fui

quando cheguei a ser

luminosa presença da graça,

ou da alegria.

Um sorriso abre-se então

num verão antigo.

E dura, dura ainda."

Eugénio de Andrade
in Os lugares do lume, 1998.


 


Há imagens que devolvem a infância como quem abre uma janela para dentro da própria memória. As crianças desta fotografia de Patellan, amontoadas num carro improvisado, parecem rir do mundo inteiro, como se a alegria fosse um gesto simples, quase gratuito.


O poema de Eugénio de Andrade acende o resto: lembra-nos que, mesmo nos dias em que tudo nos cai em cima, há um eco antigo que insiste em sobreviver, uma claridade que teima em não morrer.


Talvez porque, apesar do cansaço, ainda reconhecemos naquelas crianças uma versão nossa que não se rendeu, que (ainda) correu no molhe, que cantou sem vergonha da própria felicidade.


E é aí que se abre um sorriso, daqueles que não (se) pedem desculpa. E ele dura, dura ainda, como se quisesse provar que a graça nunca nos abandonou. Apenas aguardou o momento certo para regressar

Comentários