As lideranças que mandam, as lideranças que estragam… e as que apenas acontecem

 


As lideranças que temos dizem muito sobre o lugar onde estamos, mas dizem ainda mais sobre aquilo que aceitamos calados. Há líderes que inspiram, orientam, assumem o erro, e há os outros: os que sobem pela porta do fundo, os que lideram por medo, por cobardia ou por vaidade travestida de competência.

Lideranças que fazem crescer

Há chefias que sabem ouvir, que protegem as equipas, que assumem a responsabilidade quando algo corre mal e distribuem o mérito quando algo corre bem. São raras, mas existem: não se irritam com perguntas, não confundem autoridade com grito, nem respeito com obediência cega. Um bom líder não precisa de humilhar ninguém para ser levado a sério. Precisa de ser justo, coerente e presente.

Lideranças tóxicas

Depois vêm as lideranças tóxicas, especializadas em sugar energia, tempo e amor próprio a quem trabalha. São os chefes que decidem por impulso, que comunicam por boato, que elogiam na ausência e desautorizam em público. São peritos em controlar, mas analfabetos em motivar. Gostam de dossiês, de relatórios e de reuniões, desde que sirvam para mostrar poder, não para resolver problemas. E quando falham, não falham: “a equipa é que não esteve à altura”.

A liderança tóxica é aquela que transforma profissionais competentes em pessoas exaustas, desconfiadas, silenciosas. E o silêncio, nesses contextos, não é paz. É medo.

Os mansos no poder

Há ainda a fauna fascinante dos mansos que chegam a chefes. Pessoas sem espinha dorsal, que passam anos a dizer “sim, senhor” a tudo, a evitar conflito, a não se comprometer com nada, até que, por desgaste ou por comodismo institucional, alguém lhes põe um carimbo na mão e uma cadeira mais alta. Continuam mansos para cima, mas descobrem subitamente uma inesperada coragem para baixo. Com os superiores são dóceis, com os subordinados tornam-se zelosos: cumprem ordens absurdas, impõem regras que nem compreendem! E justificam tudo com a frase clássica: “não sou eu, são as normas”.

O manso chefe não arrisca. Não defende ninguém. Não afronta injustiças. Limita-se a sobreviver no cargo. Não lidera, ocupa. É o funcionário que subiu degraus, mas não cresceu um único milímetro.

Cumplicidades silenciosas

Mas convém não esquecer: lideranças tóxicas e mansos promovidos não aparecem por geração espontânea. São escolhidos, mantidos e, muitas vezes, reciclados pelos sistemas que preferem gente previsível a gente livre, gente dócil a gente pensante. E enquanto as equipas se vão adaptando, engolindo sapos, fazendo o que podem “para não criar problemas”, o ambiente degrada-se, o talento desmoraliza e os bons acabam, mais cedo ou mais tarde, por sair ou desistir por dentro.

No fim, a pergunta é simples, mas crucial: liderar é mandar ou é assumir responsabilidades?

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