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Num país onde já nada é levado à letra, exceto quando convém, eis que surge mais um escândalo de proporções carunchosas. Um modesto bicho, desses que sempre trabalharam nas sombras, foi acusado de assédio sexual. O crime, dizem, é grave. Gravíssimo. Terá passado anos a comer a secretária.
Note-se, não a secretária de óculos na ponta do nariz, guardiã dos agrafos e sacerdotisa do carimbo. Não. A outra. A de quatro pernas, silenciosa e cúmplice, feita de madeira e dignidade institucional. Mas, como vivemos na era da indignação instantânea, já ninguém distingue entre madeira e metáfora, entre mobília e moralidade.
O pobre inseto, que nunca frequentou formações de recursos humanos nem assinou códigos de conduta, limitou-se a fazer o que sempre fez: trabalhar por dentro. Discretamente. Persistente. Com uma ética de mastigação irrepreensível. Nunca levantou a voz, nunca interrompeu reuniões, nunca pediu subsídio de alimentação. Apenas comeu. Em silêncio. Como tantos outros, aliás, mas com menos gravata.
O mais curioso é que só deram por ele quando a estrutura começou a ceder. Enquanto o verniz brilhava, ninguém questionava. Foi preciso a superfície estalar para que surgissem os moralistas de ocasião, esses fiscais da integridade retroativa, sempre prontos a condenar aquilo que ignoraram durante anos.
No fundo, o bicho do caruncho é o funcionário ideal. Invisível, dedicado e eficaz. Corrói sem protestar. Sustenta sem reconhecimento. E quando finalmente é descoberto, é promovido a escândalo.
Talvez o verdadeiro problema nunca tenha sido o que ele comia. Mas sim o que os outros fingiam não ver.
Note-se, não a secretária de óculos na ponta do nariz, guardiã dos agrafos e sacerdotisa do carimbo. Não. A outra. A de quatro pernas, silenciosa e cúmplice, feita de madeira e dignidade institucional. Mas, como vivemos na era da indignação instantânea, já ninguém distingue entre madeira e metáfora, entre mobília e moralidade.
O pobre inseto, que nunca frequentou formações de recursos humanos nem assinou códigos de conduta, limitou-se a fazer o que sempre fez: trabalhar por dentro. Discretamente. Persistente. Com uma ética de mastigação irrepreensível. Nunca levantou a voz, nunca interrompeu reuniões, nunca pediu subsídio de alimentação. Apenas comeu. Em silêncio. Como tantos outros, aliás, mas com menos gravata.
O mais curioso é que só deram por ele quando a estrutura começou a ceder. Enquanto o verniz brilhava, ninguém questionava. Foi preciso a superfície estalar para que surgissem os moralistas de ocasião, esses fiscais da integridade retroativa, sempre prontos a condenar aquilo que ignoraram durante anos.
No fundo, o bicho do caruncho é o funcionário ideal. Invisível, dedicado e eficaz. Corrói sem protestar. Sustenta sem reconhecimento. E quando finalmente é descoberto, é promovido a escândalo.
Talvez o verdadeiro problema nunca tenha sido o que ele comia. Mas sim o que os outros fingiam não ver.
ambiguidade
burocracia
caruncho
crítica social
escândalo
hipocrisia
humor
instituições
ironia
linguagem
metáfora
moralismo
sátira
secretária
sociedade
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