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Viajar de comboio em Portugal tornou‑se uma espécie de rito de iniciação. Uma experiência quase espiritual, mas daquelas que nos fazem perder a fé. Não é transporte, é penitência. Uma espécie de castigo burocrático, embrulhado em horários fictícios e carruagens que parecem saídas de um arquivo morto.
A ida a Lisboa entregou‑me o mesmo diagnóstico de sempre. Quase cinco horas para um percurso que, em teoria, devia honrar o nome Alfa. Em teoria. Porque na prática, o Alfa move-se como se pedisse licença ao vento. Quarenta quilómetros por hora. Depois sessenta. Um comboio supostamente rápido, a comportar-se como um electrodoméstico avariado que ninguém se deu ao trabalho de substituir.As carruagens carregam um ar de abandono que dispensaria legendas. Sujidade instalada, casas de banho fechadas, portas que rangem, elementos soltos, e um ambiente geral de serviço público em modo pré-reforma. E depois há o silêncio. Um silêncio tão absoluto que quase parece ensaiado. Não há explicações, não há desculpas, não há uma voz que assuma que a coisa corre mal porque está mal pensada há demasiado tempo.
No regresso, o espectáculo repetiu-se. Parados vinte minutos na Gare do Oriente. Sem justificação, sem informação, sem um mínimo de respeito por quem paga bilhete. Entrou quem quis, sentou-se quem pôde, circulou quem lhe apeteceu. Ninguém controla nada. Ninguém fiscaliza nada. A CP vive num ambiente tão descontraído que até a gravidade parece opcional.
E é aqui que nasce o problema estrutural: quando não há concorrência, instala-se a ilusão confortável de que tudo está bem. Comodismo que vira desleixo. Desleixo que vira desprezo. E o passageiro, esse figurante habitual, continua a pagar como se viajasse num serviço de excelência. Pagar depressa. Viajar devagar. O slogan escreve-se sozinho.
A ferrovia é estratégica, dizem. Mas não se nota. Estratégico é aquilo em que se investe, aquilo que se cuida, aquilo que se projeta para o futuro. Aqui, projetamos é remendos. Empurramos problemas com a barriga, refazemos promessas como quem recicla o mesmo folheto há décadas, e continuamos a acreditar que um país se move com material que já não inspira confiança a ninguém.
Viajar devia ser um gesto natural. Não uma lotaria com prémio de consolação. Devia ser sinónimo de eficiência, dignidade, respeito pelo tempo e pela vida das pessoas. Por enquanto, é só o espelho de uma estrutura que se habituou a sobreviver na sombra da falta de alternativas. E quando não há alternativas, não há urgência. E quando não há urgência, não há evolução. Há apenas inércia. Muita. Demasiada.
Um dia, talvez, Portugal decida tratar a ferrovia como merece. Até lá, continuamos nesta ópera cómica: um país que quer parecer moderno, a deslocar-se num serviço que insiste em lembrar-nos que ainda há muito século vinte por resolver.
E, como sempre, o passageiro entende a piada. Pena que não tenha graça nenhuma.
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