O desvio do olhar e o peso dos dias

 

Imagem retirada daqui

Há um fenómeno silencioso que me tem apertado o peito, uma espécie de sombra nos gestos mais simples do quotidiano. Quando entro num serviço, público ou privado, reparo cada vez mais na mesma coreografia riscada: as pessoas já não se cumprimentam olhando nos olhos. Dizem “bom dia” para o chão, para o monitor, para o lado. Dizem o nosso nome sem nos ver. E nós devolvemos o cumprimento como quem devolve um eco.

Isto dói-me sobretudo em contextos que exigem humanidade. Consultórios médicos, por exemplo. Há médicos que já só falam para o ecrã, agarrados ao teclado como se cada tecla fosse mais importante do que a pessoa sentada à frente. Já me aconteceu pedir licença para falar, o que é quase absurdo: pedir licença para existir num espaço onde sou paciente, não intruso. É como se o olhar direto se tivesse tornado um luxo, ou pior, uma ameaça.

E, no entanto, é no olhar que começa a confiança. É no olhar que se reconhece o outro. É no olhar que percebemos se a pessoa chegou ali inteira ou se se desfez um pouco pelo caminho. Talvez andemos todos cansados, talvez andemos todos com medo de mostrar fragilidade, talvez a pressa tenha tomado conta da nossa pele. Mas há uma agressividade muda, uma irritação latente, uma fadiga emocional que se torna evidente nos pequenos gestos, nos silêncios apressados, nos cumprimentos sem alma.

Eu esforço-me para contrariar isto. Cumprimento com um sorriso, mesmo depois de um dia que pede rendição. Não porque seja santo, longe disso, mas porque os outros não têm culpa do que me pesa nos ombros. E porque, no fundo, acredito que este país que me viu crescer, das ruas do meu bairro,  Campinho às salas de aula onde aprendi a ouvir os mais novos, só se mantém vivo enquanto nos olharmos de frente.

Por isso deixo esta pequena esperança, quase teimosa: que voltemos a levantar os olhos. Que deixemos o telemóvel, o teclado, o cansaço por um instante. Que arrisquemos ver o outro, mesmo que essa visão nos confronte ou nos emocione. Talvez seja assim que recuperamos um pedaço de humanidade que se perdeu pelo caminho. Um cumprimento verdadeiro pode não salvar o mundo, mas salva o momento. E, por vezes, é o momento que impede o naufrágio.

E agora, chegados ao início desta primavera, agradeço-lhe por (me) ler. A sua companhia é aquele olhar que não desvia, que permanece. Encontramo-nos no próximo post. Até lá, cuide do seu olhar e, se puder, ofereça-o a alguém. Pode fazer toda a diferença. 

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