O monossílabo que salva o pâncreas

A ditadura do "Sim" e a elegância da recusa

Vivemos tempos de uma obesidade fática gritante, onde o "sim" se tornou o lubrificante social de todas as conveniências. Diz-se "sim" ao café intragável com o vizinho, "sim" ao projeto moribundo do colega e "sim" a todas as solicitações que nos asfixiam o cronómetro. A evidência que aqui partilho é de uma clareza geométrica: o "Não" é uma palavra curta, de facto. Mas é, acima de tudo, um desinfetante da alma.

O problema das pessoas "muito prestáveis" é que acabam por se tornar o aterro sanitário das frustrações alheias. É uma espécie de caridade mal gerida, onde a incapacidade de pronunciar um "não" com a devida assertividade nos condena a problemas de extensão bíblica. A ironia reside nisto: enquanto o "sim" nos empurra para labirintos de compromissos bizantinos, o "não" corta o nó górdio com a precisão de um bisturi. É a economia da linguagem ao serviço da saúde mental.

A arte de não estar disponível

Seria fascinante se, em vez de cursos de "coaching" sobre como abraçar o mundo, tivéssemos seminários sobre a estética do descarte. Saber dizer "não" é um exercício de humanismo próprio. Não se trata de egoísmo, mas de uma gestão criteriosa da escassez: o nosso tempo. Há problemas que duram anos porque alguém, num momento de fraqueza ou de cortesia bacoca, não teve a coragem de liquidar o assunto com três letras e um til.

Na política, no trabalho ou na vida doméstica, o "não" é o único muro que separa a dignidade do servilismo. Quem diz "sim" a tudo acaba por não ser ninguém. É apenas um eco das vontades que o rodeiam. Portanto, da próxima vez que sentir o peso de um problema comprido a aproximar-se, lembre-se da brevidade salvadora desta palavra. É curta, é assertiva e, para os ouvidos mais sensíveis, tem o som delicioso de uma porta a fechar-se na cara do absurdo.

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