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A velha história prometia que, com um beijo suficientemente ingénuo, qualquer sapo se converteria em príncipe. A indústria dos contos de fadas ajudou, durante séculos, a vender esta ficção em embalagens cor-de-rosa, cuidadosamente higienizadas de conflito, frustração e rãs teimosamente rãs. Hoje, o enredo é mais honesto: depois de muitos beijos, muita terapia e algum fármaco, o que cresce não é o príncipe, é a coleção de sapos com coroa, sentados lado a lado, a comparar traumas de infância e prestações do automóvel.
Bruno Bettelheim lembrava que os contos de fadas serviam para ajudar as crianças a lidar com angústias, a reconhecer o mal e a estruturar uma moral interna. Substituímo-los por versões pasteurizadas, onde o conflito é cortado à tesoura para não assustar ninguém, e por romances açucarados que prometem redenção automática através do “amor verdadeiro”. O resultado está à vista: gerações treinadas para acreditar que a pedagogia sentimental consiste em reabilitar sapos, como se o beijo, a compreensão infinita e a capacidade de suportar faltas de respeito fossem uma espécie de estágio curricular para o matrimónio.
Entretanto, a imagem que acompanha este texto tem a delicadeza de nos dar uma alternativa: depois do beijo, em vez de príncipe, surge uma princesa transformada em sapo, isto é, alguém que abdica de si para caber no tanque de lama do outro. A saturação é tal que, no último quadrinho, já nem percebemos qual dos dois começou por ser humano, apenas constatamos a democrática igualdade da desilusão. Talvez seja esse o verdadeiro conto de fadas contemporâneo: não a promessa de que um dia encontraremos o príncipe encantado, mas o aviso de que, se beijarmos sapos em série, o mais provável é acabarmos a coaxar com eles.
Talvez esteja na hora de reescrever o feitiço: em vez de ensinar meninas e meninos a beijar sapos à espera de milagres, convém educá-los para reconhecer padrões de abuso, narcisismo e preguiça emocional, e para aceitar a ideia revolucionária de que ficar só é, muitas vezes, preferível a partilhar o castelo com um anfíbio egocêntrico.
Apps, filtros e sapos sem metamorfose
A princesa contemporânea já não perde a bola de ouro no poço, perde tempo em apps de engate, onde desliza o dedo como quem atira moedas a um desejo. Em troca, recebe promessas de “alma gémea”, playlists partilhadas e selfies com filtros que nem o melhor feitiço da fada madrinha conseguiria imaginar. O problema é que, no encontro presencial, o encantamento expira ao primeiro comentário misógino, à piada boçal sobre feminismo ou à incapacidade de distinguir um livro de um story de Instagram, e o feitiço desfaz-se: continua a haver apenas um sapo, agora com dados móveis ilimitados. Nos contos antigos, a coisa resolvia-se com um gesto abrupto: em certas versões, a princesa nem beija, atira o bicho contra a parede e, zás, aparece o príncipe arrependido, pronto para o casamento que selará a moral da história. A contemporaneidade, sempre inovadora, melhorou o método: não se atira o sapo à parede, atira-se ao “bloquear utilizador”, seguido de captura de ecrã enviada ao grupo de amigas como prova documental do espécime. A metamorfose continua por fazer, mas ao menos há arquivo.Bruno Bettelheim lembrava que os contos de fadas serviam para ajudar as crianças a lidar com angústias, a reconhecer o mal e a estruturar uma moral interna. Substituímo-los por versões pasteurizadas, onde o conflito é cortado à tesoura para não assustar ninguém, e por romances açucarados que prometem redenção automática através do “amor verdadeiro”. O resultado está à vista: gerações treinadas para acreditar que a pedagogia sentimental consiste em reabilitar sapos, como se o beijo, a compreensão infinita e a capacidade de suportar faltas de respeito fossem uma espécie de estágio curricular para o matrimónio.
Entretanto, a imagem que acompanha este texto tem a delicadeza de nos dar uma alternativa: depois do beijo, em vez de príncipe, surge uma princesa transformada em sapo, isto é, alguém que abdica de si para caber no tanque de lama do outro. A saturação é tal que, no último quadrinho, já nem percebemos qual dos dois começou por ser humano, apenas constatamos a democrática igualdade da desilusão. Talvez seja esse o verdadeiro conto de fadas contemporâneo: não a promessa de que um dia encontraremos o príncipe encantado, mas o aviso de que, se beijarmos sapos em série, o mais provável é acabarmos a coaxar com eles.
Talvez esteja na hora de reescrever o feitiço: em vez de ensinar meninas e meninos a beijar sapos à espera de milagres, convém educá-los para reconhecer padrões de abuso, narcisismo e preguiça emocional, e para aceitar a ideia revolucionária de que ficar só é, muitas vezes, preferível a partilhar o castelo com um anfíbio egocêntrico.
A moral da história, na versão 2026, poderia ser simples: antes de procurar príncipes encantados ou princesas perfeitas, convém deixar de se comportar como sapo, descer do nenúfar do ego inflado e aprender a ser pessoa, sem coroas de plástico nem filtros de “felizes para sempre”.
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