- Obter link
- X
- Outras aplicações
- Obter link
- X
- Outras aplicações
Debruço-me sobre um “evangelho” que temos visto, lido e escutado em todo o lado, dos meios de comunicação social às redes sociais: o importante é ter uma abordagem positivista, pensar que tudo vai correr bem, para, dessa forma, atrair coisas igualmente positivas. Creio que a coisa não será bem assim, não é nada linear, e pensar positivamente, embora importante, não garante, por si só, sucesso, nem é condição sine qua non para que, a seu tempo, as coisas corram bem.
Pensar positivo não paga contas
Podemos pensar positivamente, não faz grande estrago, não gasta muita energia e, mesmo que, no fim, as coisas corram mal, paciência, avançamos. O problema é a quantidade de gente que, numa ânsia de ser influencer motivacional, anda a induzir as pessoas em erro, dizendo, sugerindo, insinuando que só isso basta. Não basta.
Do mesmo modo, também não é verdade que ser honesto, trabalhador, resiliente e persistente chegue para ter sucesso. Conheço muita gente que reúne essas qualidades, esses predicados, essas virtudes, e mesmo assim não tem sucesso. Vivemos, aliás, num país em que ter trabalho já não garante dignidade nem mínimos de sobrevivência, como provam as pessoas que acumulam dois e três empregos para assegurarem a sua subsistência e a dos seus.
É preciso ter cuidado com estes discursos inspiracionais e holísticos, porque a razão do sucesso de muitas personalidades reside no facto de serem especiais. E ser especial hoje, o que é? Com a maturidade da idade e a experiência de vida, chego cada vez mais à seguinte conclusão: tornamo-nos especiais quando a pessoa certa, na hora certa, no local certo, repara em nós. A partir daí, tudo passa a fazer diferença.
Ser especial: a pessoa certa, na hora certa
Isto aplica-se à vida sentimental, social, profissional. Conheço muita gente com qualidade, competência, perfil, resiliência, genuinamente boas pessoas, que, apesar dos seus desempenhos, não têm o reconhecimento que gostariam e por que se batem. Entretanto, pululam personalidades públicas que adoram discursar sobre abordagens holísticas e inspiracionais, vendendo a ideia de que acreditar muito é meio caminho andado, quando não o caminho todo.
Depois, as pessoas dão por si a perguntar: “Mas eu acreditei tanto, acreditei de forma tão positiva e, mesmo assim, não tive sucesso. O que é que falhou em mim?” Estamos a transferir para as pessoas um sentimento de frustração que elas não merecem. Muitas vezes não têm sucesso porque não foram especiais, isto é, na hora certa, no local certo, a pessoa certa simplesmente não reparou nelas.
Muitas carreiras de sucesso aconteceram assim: alguém, num momento crítico, reparou em alguém. Há tempos via, na televisão, a Cristina Ferreira, a quem reconheço méritos, embora esteja longe de ser fã confesso, a entrevistar um ex-concorrente de um reality show. A certa altura, ela diz-lhe: “Tu estás sempre a dizer que as coisas boas não te acontecem, por mais que te esforces e batalhes. Já pensaste que é por pensares assim que nunca tens tido sucesso?”
Isto é de uma crueldade brutal. A Cristina Ferreira, como outras figuras, vive numa bolha e pensa que o seu caso particular pode ser replicado para o comum dos mortais. Não pode. Não basta pensar positivamente, não basta persistir, embora sejam dimensões importantes, imprescindíveis até. Às vezes, é preciso que cada um de nós seja especial, e voltamos à conversa de há pouco: a pessoa certa, na hora certa, no lugar certo.
autoajuda
crítica social
desigualdade
dignidade laboral
esforço
frustração
holismo
influência social
inspiração
meritocracia
motivação tóxica
pensamento positivo
reconhecimento
sucesso
- Obter link
- X
- Outras aplicações

Comentários
Enviar um comentário